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Viagens Soltas | Bangladesh no coração

Uma crónica de Rui Daniel Silva

26/10/2017 | Fonte: Texto cedido por Rui Daniel Silva

Rui Daniel Silva | Bangladesh

Com uma área um pouco maior que a de Portugal, o Bangladesh é um dos países mais populosos do mundo, com cerca de 160 milhões de habitantes. Infelizmente, também é um dos países mais pobre do mundo. Sem sombra de dúvida que o Bangladesh não é dos países mais bonitos que podemos encontrar, mas nele habitam os sorrisos mais puros e ingénuos. Uma certa dádiva concebida pelos deuses, onde todo o caos da capi-tal Daca é simplesmente ignorado pela tremenda simpatia e ociosidade dos seus nati-vos.

Obter o visto no aeroporto foi relativamente fácil. O primeiro impacto depois de pisar solo não foi de modo algum uma surpresa. Sabia exatamente o que me esperava.
Contudo não estava preparado para tal pobreza. Logo no aeroporto, deparei-me com uma funcionária que varria o chão descalça.

Com uma pousada reservada, perguntei a um taxista se conhecia o meu aposento. Como é óbvio, todos querem ganhar dinheiro e a resposta é sempre afirmativa. Uma confiança cega que por vezes até eu admiro. Corrigindo conscientemente a minha penúltima frase: como é óbvio, o taxista não sabia onde ficava a pousada.

Depois de serpentear durante meia hora um frenético caos, que mais parecia um jogo de xadrez kafkiano, onde as torres andam na diagonal ou os bispos com movimentos similares aos peões, estávamos no centro da cidade. A posição da tão procurada pou-sada era um enigma. O rapaz bem perguntava aos nativos onde ficava, mas ninguém conhecia. Creio ter sido das poucas vezes que não levei a mal esta desorientação por parte de um taxista.

O Bangladesh não é um país turístico e a verdade é que as ruas apinhadas de gente e de velocípedes não facilitavam em nada a locomoção. O que me valeu, foi ter o número de telefone da pousada no meu livro. Aposento encontrado, era hora de me abrir a um mundo, pelo qual eu já ansiava há muito tempo, o Bangladesh.

A primeira palavra que me ocorre para uma descrição minuciosa e precisa das ruas da capital é caos. Entre ruas pejadas de gente e os imensos rickshaws, todo o cuidado era precioso para atravessar uma simples estrada.

O calor que se fazia sentir era insuportável. Quando parava para fumar um cigarro, era imediatamente rodeado por uma dezena de pessoas, que ficavam pasmadas a olhar para mim. Umas sorriam, outras tiravam fotografias e algumas fitavam-me co-mo se eu fosse algum extraterrestre.
Nunca na minha vida tinha presenciado tal curiosidade por parte dos autóctones. Uma situação que me deixava bastante amargurado, era quando parava para comer algo. Alguns nativos pareciam ougados a olhar para a comida e havia mesmo quem se ba-basse.
Por isso mesmo, decidia sempre oferecer a minha comida, a qual eles aceitavam sem qualquer problema.
Sentia-me triste por perceber que muita gente passava fome, mas ao mesmo tempo feliz por ver a alegria com que eles devoravam toda a comida.
Um dos meus primeiros objetivos era chegar ao rio Bugiganga.

Pedia informações na rua, mas ninguém falava inglês. Contudo, as respostas negativas agradavam-me imenso, porque havia sempre um sorriso.

Passado algum tempo, finalmente encontrei alguém que dominava o inglês na perfei-ção. De imediato, o jovem indicou-me um autocarro. Entrou comigo no tal autocarro e quando chegámos ao destino não me deixou pagar o bilhete.
Entre as ruas loucas apinhadas de vendedores, toda a gente me queria conhe-cer. Alguns pediam-me o meu nome no facebook e outros simplesmente me seguiam ao longo do caminho.

Verdade seja dita, não se via um único turista.

Já nas margens do rio, decidi dar um passeio de barco e o rapaz acompanhou-me. Na hora de pagar o bilhete, o rapaz teve novamente a mesma atitude, não me deixando pagar. Insisti por não me sentir confortável com esta situação, mas ele apenas me queria agradar. Na hora da despedida, tirou algumas fotografias comigo e despediu-se com um enorme sorriso.

De seguida, decidi visitar o forte de Lalbagh, situado nas margens do mesmo rio. Este forte, construído no século XVII, está rodeado por um belíssimo jardim. À entrada, de-parei-me com uma equipa da televisão do Bangladesh.

Cumprimentaram-me e mal disse que era português, referiram o nome do Cristiano Ronaldo. Continuei o meu passeio e após um bom pedaço, decidi sentar-me numa sombra e fumar um cigarro. Pouco tempo depois, um rapaz da equipa televisiva veio ter comigo e perguntou se haveria algum problema em me filmar. Esbocei um sorriso e apesar de não me opor, questionei a razão. A resposta foi bastante simples e engra-çada. Estavam a fazer um documentário sobre locais históricos na capital e como eu era o único turista, queriam filmar-me. E assim foi.

Após este episódio invulgar, o rapaz nunca mais me largou. Mostrou-me o jardim em redor do forte e falou um pouco sobre a história do seu país. Numa pequena loja, comprou uns postais do Bangladesh e ofereceu-mos.

À medida que alguns jovens passavam pelo jardim e se apercebiam da minha presen-ça, a curiosidade ganhava uma proporção desmedida, mas ao mesmo tempo engraça-da.

Bastou um deles pedir uma fotografia comigo, que aos poucos começou a formar-se uma fila enorme. Sozinhos ou com as respetivas namoradas, assim foi durante algum tempo.

Contudo, este cenário não me incomodava nada. Antes pelo contrário.

Sentia uma alegria tremenda por perceber que uma simples foto transformava aque-les rostos numa felicidade contagiante e genuína e aos poucos a palavra Bangladesh ganhava vida no meu coração.

Sorrisos que jamais se apagarão da minha memória por serem autênticas relíquias e onde a venustidade do país está num simples rosto, num simples olhar e num simples sorriso.

Amo o Bangladesh e até um dia…

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