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KHOISAN

Os caminhos da integração social

02/07/2012 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Julho/Agosto 2012)

Fotos

Fotos: Chico Júnior, Alexandre Sakukuma and Archive

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  • Tal como Nelson Mandela, a famosa cantora Míriam Makeba era Xhosa
  • KHOISAN 8
  • Nelson Mandela, do grupo etno-linguístico Xhosa, apresenta semelhança física com os Khoisan.
  • Os caminhos da integração social
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  • Os hábitos da recolecção de frutos silvestres são trocados
  • Os hábitos da recolecção de frutos silvestres são trocados
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Tal como Nelson Mandela, a famosa cantora Míriam Makeba era Xhosa1 de 9

É longa a sua história, conjecturada em dezenas de milhares de anos, mas actualmente existem apenas pequenas populações, principalmente no Deserto do Kalahari, no Sul de África, onde são mais capazes de preservar boa parte da sua cultura e estilo de vida. Calcula-se que existam actualmente cerca de 100.000 Khoisan no sul de África, dos quais 50.000 vivem no Botswana, 35.000 na Namíbia, 5.000 na África do Sul e os restantes em Angola, Zâmbia e Zimbabué. O nome designa uma família de grupos étnicos existentes na região sudoeste de África, que partilham algumas características físicas e linguísticas.

Os Khoisan actuais podem ser descendentes de povos caçadores- recolectores que habitavam toda a África Austral e que desapareceram com a chegada dos Bantu a esta região, há  cerca de 2.000 anos. Não é provável que os Bantu os tenham exterminado, uma vez que algumas das suas características
 inguísticas e físicas foram assimiladas por vários grupos Bantu, como os Xhosa e os Zulu. A diminuição do seu território de caça, derivado da instalação dos agricultores Bantu, pode ter sido uma causa para redução do seu número e da ua área habitada.

Até a instalação dos holandeses e franceses huguenotes na África do Sul, há cerca de 200 anos, estes povos ainda povoavam grandes extensões da Namíbia e do actual Botswana. Em seguida, porém, foram praticamente exterminados por aqueles, uma vez que não aceitavam trabalhar nas condições que os novos colonos exigiam, tal como aconteceu com as aborígenes de outros continentes. Estes colonos chamaram-lhes hotentotes – que significa “gagos” na língua neerlandesa, provavelmente devido à sua linguagem peculiar através de cliques – ou bushmen, ou seja “homens da floresta”, termo que foi adaptado para a língua portuguesa como bosquímanos. Ambos os nomes têm, actualmente, uma conotação pejorativa. As designações utilizadas actualmente sãoderivadas dos nomes das suas línguas. No entanto, os dois grupos permaneceram culturalmente distintos, com os Khoikhoi na pastorícia e os San a subsistirem como caçadores- colectores. Em suma, Khoisan é um nome unificador para dois grupos étnicos da África Austral, que compartilham características físicas e linguísticas distintas da maioria Bantu da região.

ORIGEM E FIXAÇÃO

Estudos como Where The First Are Last: San Comunities Fighting For Survival In Southern Angola, de Richard Pakleppa e Américo Kwononoka (2003), e a abordagem Angola, Os Sans e o Desenvolvimento: Relatórios das Comunidades San do Sul de Angola (2007) são investigações que abordam sucintamente o retrato histórico, linguístico e antropológico da comunidade hoisan. Entrementes, a historiografia de qualquer povo é um tecido de retalhos com registos de momentos altos e baixos. Esta asserção pode não ser aplicável universalmente, mas para Angola é assertiva, quando se trata da comunidade Khoisan, Bosquímanos ou Boxímanes, como se designam. Registos históricos atestam que a invasão do território San pelos Bantu, por volta do século I e VI, influenciou profundamente o seu modus vivendi.

Origem dos Bosquímanos é lendária e recheada de enigmas: até hoje nenhuma convicção é consensual, entre os antropólogos, sobre a génese certa deste povo. De acordo com alguns estudiosos, os Bosquímanos têm a sua filiação genética em homens de Grimaldi, negróides descendentes de povos oriundos da Ásia, portadores de cultura de tipo aurinhacense que há mais de 50.000 anos viveram na Europa ocidental. Esta hipótese coaduna, em parte, com a ideia de Almeida (1994:27), ao afiançar que este povo é produto de cruzamentos de mulheres africanas com homens chineses ou mineiros persas, assírios, indianos, quando em terras da rainha de Sabá, por ordem de Salomão, se efectuavam explorações auríferas. Destas alegações, surge uma convergência em relação ao local da genealogia: a Ásia. Adiante só são divergências próprias de estudos diacrónicos de povos ágrafos.

Sobre a fixação dos San, parece inicialmente ser uma abordagem paradoxal, pelo nomadismo inato dos Bosquímanos. Contudo, a sua integração em comunidades sedentárias permite-nos abordar o assunto sem deixar de lado o processo que os levou à sedentarização, assim como s grandes migrações. Comecemos pela migração, por anteceder a sedentarização. Os Bosquímanos realizaram duas grandes migrações: uma para Sul em direcção ao lago Ngami, África Central, fixando-se por algum tempo nas bacias dos rios Vaal Reit. Desta horda, uns partiram para a Gricualandia ocidental, outros para Leste até Wittebergen e os restantes para Sul, ocupando um extenso território da África do Sul. Outra migração dos San encaminhou-se para Oeste, chegando ao litoral atlântico, ao Sul de Windhoek, onde depois seguiu para Oriente, assenhoreando-se das terras onde actualmente se situa Maputo, ex-Lourenço Marques. Mais tarde, obrigados pelos Bantu, deslocaram-se para Ocidente, indo habitar as regiões onde previamente haviam estacionado os Bosquímanos da primeira migração, como atesta também Stow ([s/d]: 98). Com a chegada dos povos Bantu no século XIII, vindos do Vale do Benué, entre os Camarões e a Nigéria, os San foram expelidos para Sul do continente. Os Bosquímanos de Angola são considerados descendentes tanto da primeira, como da segunda migração.

Fisicamente os Bosquímanos são de pequena estatura, entre 1.30 a 1.50 metros de altura, fraca corpulência, grande magreza com rugosidade na pele, cabelos curtos dispostos em tufos e orelhas pequenas com lóbulos aderentes. A pele mostra-se geralmente pouco pigmentada, de cor amarelada,
com escassa pilosidade corporal e rara barba. Além disso, possuem a prega epicântica nos olhos, como os chineses e outros povos do Extremo Oriente. Algumas destas características são agora comuns a outros grupos étnicos sul-africanos,sendo patentes por exemplo em Nelson Mandela.

O QUE É A CULTURA SAN HOJE?

A cultura é o bilhete de identidade de um povo, também entendida como o seu “ethos”, ou seja, o conjunto de características que o diferenciam de qualquer outro. Hoje, no mundo globalmente multicultural, a tendência de glotofagia das ‘maiores’ culturas às ‘menores’ é iminente. Em Angola, apesar de não existirem dados oficiais actualizados sobre o úmero exacto de Khoisan, sabe-se que das 18 províncias, apenas três os albergam: Huíla, Kunene e Kuando Kubango. Deste facto, presume-se que a sua cultura tenha sofrido alterações e/ou influências: primeiro, pelo facto de o seu território ter sido invadido; por ter migrado para locais mais seguros durante a guerra civil e, por fim, porque o seu modus vivendi nómada foi fortemente influenciado pelas mutações políticas do período conflituoso e, muito provavelmente, pelas mutações da natureza: seca, desertificação, extinção de espécies animais e outros factores exógenos. Estas afirmações, ainda que hipotéticas por carecerem de mais investigação, podem ser legítimas, na medida em que até agora há poucas investigações para o apuramento das alegações feitas supra.

ALGUNS TRAÇOS CULTURAIS

Os Khoisan eram conhecidos na altura por serem incrivelmente bons atiradores. Na Lunda, no Zaire e no Cuangar foram encontrados instrumentos de pedra e outros dos homens do Paleolítico. No deserto do Namibe (integrante do Kalahari), foram encontradas gravuras rupestres nas rochas. Trata-se das gravuras do Tchitundu-Hulu, atribuídas aos antepassados dos Khoisan.

Nascimento: A mulher Bosquímana dá à luz no meio da floresta, sem assistência, mesmo que se trate de uma primípara. Neste caso, por ser a primeira vez, deverá ser vigiada por uma idosa mais experiente, encarregada de observar, por trás de uma árvore, com prontidão para intervir caso necessário. Por outro, há relatos antropológicos que nos revelam que para o parto, a parturiente põe-se de joelhos e é assistida por uma parteira tradicional, que procede ritualmente, sentando-se à frente da parturiente e entalando os seus pés entre as coxas, para minimizar as dores de parto e todos os movimentos que advierem. Encarrega-se também de trata-la com folhas aromáticas até a sua completa recuperação.

Casamento: O casamento na comunidade resulta de concertações e das escolhas das mães, quando os seus filhos ainda são crianças. Cabe à progenitora da futura noiva decidir qual o noivo apropriado. Quando entre os 20 e 25 anos de idade, as negociações preliminares são retomadas já com os pais,
familiares directos e um amigo do noivo, normalmente pertencente ao mesmo acampamento da rapariga pretendida. Em todo caso, a rapariga é publicamente interrogada, para saber se aceita ou não. Em caso de aceitação, o noivo deve morar em casa de um familiar da noiva, para provar as suas aptidões como bom caçador. Enquanto o compromisso durar, as famílias trocam presentes. Findo o processo, é-lhe entregue a mulher sem mais nenhum ritual.

Herança: A herança deste povo nómada consiste sobretudo em instrumentos de caça: machadinhos, flechas e peles que passam a ser propriedade da mulher depois da morte do companheiro. Existe outra versão que aponta que a herança é um misto de lei “patrilinear” e “matrilinear”, ou seja, o arco
e a flecha são herdados pelos parentes maternos do defunto, enquanto os machadinhos vão para os filhos. Entretanto, estes procedimentos vão sendo substituídos por costumes de povos Bantu vizinhos, em que a herança vai para o sobrinho, filho mais velho da irmã do esposo. No caso de não
haver descendentes masculinos da linha materna, a herança passa directamente para um filho de uma prima materna do falecido, ou seja, para um segundo sobrinho.

Religião: A religião San consiste sobretudo na veneração aos astros e seus estados de mutação. Para os Khoisan, o Ser-Supremo é a Gaua, a quem atribuem os sucessos ou insucessos da caça e outras bênçãos ou maldições. No que diz respeito ao culto lunar, o aparecimento da lua nova é celebrado com manifestações de alegria, o que se repete por ocasião da lua cheia: exibem-se danças imitando animais da floresta e canções de uivos. Muitas vezes a lua é considerada também uma divindade. Quando surge, é fortemente saudada como a um pai que visita os filhos raramente, além de a considerarem morada dos espíritos dos ancestrais.

A especificidade linguística: A maior parte das línguas Khoisan são faladas na África do Sul. Os linguistas dividem a família em três ramos: (1) Hatsa; (2) Sandawe, (3) Khoisan sul-africano. O khoisan sul-africano compreende três grupos de línguas: (1) grupo Norte, que engloba as línguas San do Norte, dos Auen e dos Kung; (2): Khoisan central, dividido em dois grupos: a) Kiechaware, b) Naron, Khoi-khoi; (3) San do Sul, grupo que apresenta a maior diferenciação interna.

Os San de Angola enquadram-se nesta última família. Actualmente, este grupo minoritário é bilingue e/ou plurilingue, em alguns casos, por adoptar os idiomas dos povos vizinhos. Falam a sua língua apenas entre si, em ambiente familiar e quando isolados dos grupos Bantu. Os Zulu e os Xhosa adoptaram o clique dos Khoisan nas consoantes e introduziram palavras de empréstimo nas suas línguas respectivas.
Gramaticalmente, as línguas Khoisan são, em geral, isolantes. Os sufixos são usados com frequência, mas a ordem das palavras é usada com mais frequência que a inflexão. A cultura ocidental tomou conhecimento destas línguas a partir do filme de 1984 “Os Deuses Devem Estar Loucos”, de Jamie Uys. Outrossim, das investigações efectuadas sobre o estado actual da língua dos Khoisan em Angola, não estão previstas políticas para a sua preservação e promoção, devido ao número reduzido de falantes. Todavia, dada a sua importância histórica e necessidade de integração destes povos, parece-nos que as mesmas deveriam ser estudadas. Nalguns países, a minoria “Aborígene – Nata”, quase sempre em extinção, é protegida pelo Governo que também vela pela sua sobrevivência.

A INTEGRAÇÃO SOCIAL

O trabalho de campo realizado depois do fim do conflito angolano possibilitou aos investigadores contactar com o povo Khoisan em Angola, documentar as suas condições de vida e propor medidas para os ajudar. A TROCAIRE (agência católica irlandesa para o desenvolvimento mundial); o
WIMSA (Grupo de Trabalho para as Minorias Indígenas do Sul de África) e a OCADEC (Organização Cristã de Apoio ao Desenvolvimento Comunitário) ajudam o povo Khoisan que ive no Sul de Angola. De acordo com o coordenador do WIMSA e um especialista que trabalhou com os Khoisan no Sul de África durante 25 anos, este apoio destina-se a ajudar as pessoas a tornarem-se auto-suficientes e tem estado a surtir efeito. Afirmou que os níveis de segurança alimentar dos Khoisan melhoraram significativamente, em parte devido à ajuda que receberam, mas também devido ao empenho deste povo e aos recursos naturais agrícolas. Trata-se de um grupo de pessoas que conseguiu sobreviver como excluído durante 27 anos de guerra.

A política do Governo angolano, que reconhece que todas as comunidades rurais, incluindo os Khoisan, precisam de ter um terreno e uma casa segura, pode contribuir para a sua integração social. É importante incentivar os Khoisan a plantar algo duradouro, para que tenham recursos a longo prazo e incentivá-los a apanhar plantas selvagens, sementes e raízes do mato para terem alimentos e ingredientes para os medicamentos naturais, mantendo vivos os seus conhecimentos tradicionais. A recolha de alimentos é uma actividade comunal realizada pelos jovens, pelas mulheres e pelos mais velhos. É como uma escola para as crianças, que vão descobrir como identificar as plantas e saber se são comestíveis ou venenosas.

Os Khoisan de Angola são considerados mais avançados em comparação com os que vivem nos países vizinhos: têm mais conhecimentos sobre agricultura; são bons a cultivar a terra; aprendem muito rapidamente a cuidar deles próprios e não se tornam dependentes das organizações de desenvolvimento. Conjectura-se que 99 por cento dos Khoisan angolanos sejam analfabetos e, embora os líderes queiram que as crianças frequentem a escola, algumas não têm dinheiro para isso.

Muitas das crianças que frequentam a escola desistem por serem maltratadas ou discriminadas, devido à sua aparência. Recentemente, crianças Khoisan de algumas comunidades do município de Menongue, província do Kuando Kubango, foram já inseridas no sistema normal de ensino, estando a aprender, com normalidade, a ler e escrever a língua portuguesa. O propósito é integrar mais crianças das comunidades Khoisan no sistema de ensino, apoiadas pela criação de áreas definidas de reintegração social, onde possam ser disponibilizadas infra-estruturas de acomodação (casas), escolas, hospitais, bem como o incremento da produção agrícola, para se evitar a vivência nómada. Considerado o primeiro povo do Sul de África, de acordo com provas de ADN, tem de ser protegido, para que a sua integração social não aniquile a sua cultura. É um povo excepcional, do qual nos devemos orgulhar. E tem direito a viver a sua própria cultura.

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