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No trilho dos naturalistas em Angola

02/03/2013 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Março/Abril 2013)

Fotos: Arquivo

Está em preparação uma série de divulgação científica, composta por quatro documentários, sobre o estudo da flora e do património natural de Angola, Moçambique e S. Tomé, e outro sobre As viagens philosophicas, filmado em Portugal. Nestes filmes, as histórias da ciência vão-se encadeando na paisagem, e serão referidas algumas missões botânicas protagonizadas por naturalistas que, do século XVIII ao século XX, munidos de interesse científico, genuína curiosidade e vontade de classificar o que lá se encontraria, fizeram longas expedições por terras africanas colhendo plantas, catalogadas e expostas depois em herbários e no jardim botânico.

A presença histórica desses viajantes provenientes da antiga metrópole é um dos aspectos da série, assim como a divulgação da morfologia e metamorfose das espécies botânicas características aos locais e a relação actual dos países em causa com os seus recursos, a biodiversidade e a ciência. A vontade de valorizar a investigação científica transnacional partiu da Universidade de Coimbra (UC), com os seus setecentos anos de história, e a produção cinematográfica destas viagens dos naturalistas cabe à produtora portuguesa Terratreme.

Primeira rodagem: Moçambique, entre dunas, mangais e floresta aberta, miombo, inselbergs, pelas províncias de Cabo Delgado a Nampula, está já concluída. Em S. Tomé e Príncipe, a filmar em Julho, seguir-se-á o rasto da quina que deu origem ao quinino, milagre contra a malária, embrenhados
na floresta equatorial húmida, repositório de grande biodiversidade, rica em endemismos. A rodagem em Angola, cuja realização será feita pelo português André Godinho, ocorre em Maio. O percurso seleccionado para o filme incide na exploração da diversidade vegetal e dos ecossistemas naturais, de Luanda até à província da Huíla e depois ao deserto do Namibe, com paragem na Serra da Leba e na Fenda da Tundavala. Num dos mais antigos desertos do mundo, dá-se a conhecer a ecologia da vegetação semidesértica, com a sua peculiar Welwitschia mirabilis, percorrendo o Parque do Iona e Tômbua. Na linha das nações imperiais, Angola era destino de expedições e reconhecimentos.

MERGULHO NA HISTÓRIA

O propósito deste projecto é sobretudo transmitir noções de biodiversidade, ecologia e conservação das plantas actualmente, mas também mergulhar nas histórias dos viajantes que vieram ao longo dos tempos a Angola. Ou seja, para pensar o presente é essencial compreender o passado, neste caso conhecer o legado destas expedições no desenvolvimento económico e no conhecimento científico, contextualizando
com os interesses da época.

As potências estrangeiras interessadas em colonizar África começavam por enviar missionários, como uma primeira forma de ocupação, à qual se seguiam os exploradores e militares. Depois da Conferência de Berlim, várias foram as expedições ao interior do continente africano para ampliar o conhecimento sobre as colónias, recolhendo imagens, fotografias, mapas e artefactos.

Uma figura central deste filme é Luís Carrisso, director e naturalista do Instituto Botânico da Universidade de Coimbra. As suas missões científicas a Angola datam respectivamente de 1927, 1929 e 1937, em mais de 30 mil km percorridos. Acom panhado por Mendonça na primeira Missão Botânica a coleccionador (anónimo) encontram-se em Paris, tendo servido de base para a descrição de Maerua angolensis, a Muriangombe dos barrancos de Luanda, publicada em 1824. A segunda colecção, depositada no Herbário do Jardim Botânico de Kew, foi efectuada pelo Dr. Curror, indiciado como o mais antigo coleccionador em Angola, um médico do navio de guerra “Water-Witch” que desembarca em 1840 na Baía dos Elefantes para coleccionar plantas e insectos.

Entre os colectores figuram também senhoras que, no século passado, acompanharam os seus maridos em viagem. É o caso de J. Monteiro, de nacionalidade inglesa, amiga do director do Jardim Botânico de Kew, que fez colheitas enquanto permaneceu no Bembe, Congo.

Uma missão de referência foi a de Frederico Welwitsch (entre 1853 a 1860), com considerável material recolhido, referido por exemplo no livro de Conde de Ficalho “Plantas Úteis da África Portuguesa”, publicado em Lisboa, em 1884. As regiões relativamente melhor exploradas foram as das florestas do
cafeeiro, sobretudo as do Cazengo e Golungo Alto, onde Welwitsch se instalou a trabalhar. A floresta pluviosa do Cuango é apenas conhecida superficialmente pela descrição das viagens de Büttner, Mechow e Bacelar Bebiano. O mesmo conhecimento superficial se tem dos maciços de árvores de porte elevado da Lunda e da fronteira Leste do Moxico.

Francisco Newton, ao que parece, também protagonizou uma grande viagem, entre 1880 e 1883, por Moçâmedes e Huíla, Cabo Verde, Dakar, Canárias, Bolama e Orango nos Bijagós, Freetown, S.Tomé, Ilha do Príncipe, Fernando Pó, Zaire, Congo, Cabinda,  Ambriz, Catumbella, Timor, Ovâmpia e Damaralândia. Por estes lugares recolheu plantas que iriam ser classificadas por estrangeiros: Hoffmann, Nordstedt, Saccardo, Berlese, Nylander, Winter, Flahault, Wittrock, Hackel, Ridley, A. Cogniaux, Baker, etc.

EXPLORAÇÕES ZOOLÓGICAS

O botânico suíço Gossweiler assinalava o interesse de naturalistas de diversas nacionalidades pela região desértica do Namibe, Serra da Chela e do planalto da Humpata, abrangendo importantes áreas de comunidades cuja vegetação tem dezenas de espécies inéditas. “A sua colheita é bastante difícil, dada a luta que o homem é forçado a sustentar no deserto contra os elementos em qualquer época do ano”, escrevia Gossweiler. O Cunene, embora não fosse completamente desconhecido, nunca despertou muito a atenção dos exploradores botânicos, pelo facto de ser apenas uma planície de depósito superficial de areia do Kalaari, com vegetação bastante homogénea.

José de Anchieta encontrava-se em Angola em 1866, a fazer explorações zoológicas por conta do Governo português. Durante os anos que residiu em Caconda, de 1885 a1896, também colheu algumas centenas de plantas, que classificou.

Entre muitos outros, não podemos omitir desta história colonialista os nomes de Serpa Pinto, Brito Capelo e Roberto Ivens, que encabeçaram uma expedição em 1877, organizada pela Sociedade de Geografia de Lisboa, com interesses políticos e geográficos, nomeadamente estudar as relações hidrográficas do Congo, do Zambeze e do Cuango. Durante os anos 1881-1884, ainda haveriam de recolher, além de minerais e animais, centenas de espécies de plantas no litoral do Namibe e noutras localidades incertas.

Assim, Capelo e Ivens dizem respeito a duas colecções, da viagem da antiga Moçâmedes à Huíla, enviada de Angola para a “metrópole”, e a segunda respeitante à travessia e trazida pelos próprios exploradores no seu regresso. Ficaram conhecidos pela sua aventurosa travessia da costa à contracosta de África. Já Serpa Pinto separou-se dos companheiros de viagem, e enveredou pelo Rio Zambeze em 1879, peripécias que relatou em Como Eu Atravessei a África.

Contemporâneo de Brito Capelo e Roberto Ivens era o oficial do exército português Henrique Carvalho, que se distinguiu numa expedição ao Muatiânvua, na Lunda, em 1884. A sua viagem, com vista a preparar as condições para o estabelecimento local de portugueses, teve também um importante
carácter científico, trazendo conhecimentos geográficos sobre o clima e navegabilidade dos rios. Aspectos da fauna, flora e agricultura, bem como a história, a antropologia e a língua dos povos da região podem ser consultados nos documentos e testemunhos de uma colecção recentemente exposta na Sociedade de Geografia de Lisboa. Como homenagem a este explorador, Norton de Matos alterou em 1923 o nome de Saurimo para Vila Henrique de Carvalho.

O interesse de tantos exploradores e, neste caso, botânicos por Angola, deve-se também ao facto de o país cobrir uma enorme variedade de habitats, da floresta tropical ao deserto, contornado pela longa orla marítima e a escarpa que segue até ao vasto planalto interior, onde a Este passa o rio Zambeze, importante recurso hidrográfico para a África Austral.

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