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Amélia Mingas

Uma viagem pelos afectos da linguística

11/07/2014 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Julho/Agosto 2014)

Fotos: Carlos Lousada

Ao longo do tempo os dedos passaram pelo piano, pelas viagens que a música proporciona, mas também pela luta armada e pelo percurso político do país. Amélia Mingas, decana da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, leva a Austral a percorrer a sua trajectória e os afectos da linguística africana e portuguesa.

Natural da Ingombota, bairro histórico de Luanda, Amélia Mingas tem raízes em Cabinda. Pertence a uma das famílias mais conhecidas do país, os Mingas, que deram um forte contributo no domínio da política, da educação, do desporto e também na música. Rui Mingas e André Mingas (já falecido) são nomes incontornáveis do cenário musical angolano.

As conexões familiares neste âmbito chegam até ao tio, o mais velho Liceu Vieira Dias ­ figura patriarcal que deu um impulso quase imparável à música moderna angolana, ao semba, e a uma visão urbana do cancioneiro tradicional dos diferentes povos que compõem a estrutura social do país. A teia de intersecções familiares é longa e representa uma pequena burguesia africana, luandense, que conseguiu impor-se no seio das relações coloniais e pós-coloniais.

As memórias da nossa conversa, no entanto, assumem quase sempre um registo pessoal e abandonam o registo histórico, da academia, para recordar os momentos passados em família. Para recordar os momentos de uma ternura que se ganha com o passar do tempo. "Nasci na Rua do Carmo. Os meus primeiros anos de vida foram passados na Marginal. Estamos em finais dos anos 40 e aquela era, praticamente, a única rua asfaltada da cidade.

O comboio passava junto ao mar. A cidade de Luanda acabava, digamos assim, na zona da Ingombota. As brincadeiras eram feitas neste cenário", explica a professora Amélia Mingas na conversa com a Austral. Estamos nas antigas instalações do Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), onde actualmente funciona a Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto. Amélia Mingas é a decana e um dos principais rostos da instituição.

Estamos, precisamente, na zona da Ingombota, muito próximos da Rua do Carmo: agora rodeados de prédios, novas construções, uma dinâmica de nova vida, longe dos tempos da memória. "Com o aumento da população europeia, que chegou em grande número na primeira metade do século XX, houve um movimento (de carácter administrativo e político) de afastamento dos africanos para novas áreas de construção.

Foi assim que a minha família, nos anos 50-60, foi parar ao chamado Musseque Braga, que hoje estaria localizado nas traseiras do antigo ISCED. Mais tarde, acabámos por nos fixar no Bairro Operário", recorda Amélia Mingas.

Depois dos tempos da "casa enorme da Marginal", onde gostava de "ficar à varanda para apreciar a rua e o sol", as grandes mudanças aconteceram apenas quando o pai, André Rodrigues Mingas (que foi um dos fundadores e vice-presidente da Liga Nacional Africana) assumiu a direcção de Finanças e Contabilidade da cidade de Luanda ­ o que implicou a transferência para um imóvel estatal na zona do Cruzeiro.

A vida corria de forma natural, mas com um grande encanto pela música. E pelo piano. "No período de férias, em casa dos avós (onde se juntava também o tio Liceu Vieira Dias), os serões eram vividos à volta da música. Os nossos sonhos eram musicados. Enquanto o meu avô tocava a concertina, o tio Liceu sentava-se ao piano.

Recordo-me de adormecer assim durante os dias que ali passávamos. Naquela casa cantava-se de manhã à noite". A influência do piano não veio apenas pela mente efervescente de Liceu Vieira Dias. Uma irmã mais nova do avô, Mary Van Dunem Vieira Dias, era pianista. Foi com alegria que Amélia Mingas começou a frequentar aulas de piano, com a professora Liliana Anapaz. "A partir de certa altura já tocava a quatro mãos. Sentia que podia evoluir e tinha um grande apego pelo piano. Mas o percurso da história levou-me para outros campos", lembra Amélia Mingas.

POLÍTICA E VOCAÇÃO

As actividades ligadas à política e à luta pela independência começaram a ser mais frequentes nos anos 50. A Liga Nacional Africana foi um grande centro de cultura angolana, mas que tinha também uma vertente nacionalista. Dá-se então o “Processo dos 50”, com vários angolanos acusados de subversão, presos e alguns deles deportados para o Tarrafal, a prisão cabo-verdiana utilizada pelo regime colonial português para encarcerar aqueles que se insurgiam contra o fascismo e contra o colonialismo.

O pai de Amélia Mingas foi em 1957 para o Tarrafal, depois de ter estado preso em Luanda, regressando apenas em 1965. Esta situação causou algumas mudanças. “Depois da prisão do meu pai, tive de começar a trabalhar. E foi assim que entrei para a Repartição de Educação. Naquela altura o ensino era pago e a maioria dos angolanos, como não tinha grandes possibilidades, acabava os estudos no antigo sétimo ano. Quando o meu pai regressou de Cabo Verde, insistiu muito para que eu continuasse os estudos. E foi assim que fui parar a Lisboa”.

Na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa havia pouco mais de três angolanos, entre os quais Almerindo Jaka Jamba e Meneses Limbindo. Conheceu também, nessa altura, as moçambicanas Graça Machel e Gita Howana, cuja amizade se mantém até ao momento. Amélia Mingas não terminou, nessa altura, o curso de Filologia Germânica, porque no início dos anos 70 foi forçada a abandonar Portugal.

A pressão sobre os nacionalistas africanos adensava-se, ao mesmo tempo que a luta ganhava novos contornos. Escapou-se para a Argélia e dali juntou-se ao maquis (à luta armada), no Congo-Brazzaville. Cerca de quatro anos depois, aconteceu o golpe militar do 25 de Abril de 1974 em Portugal, com a consequente queda da ditadura de Marcelo

Caetano, sucessor de Oliveira Salazar. Regressa a Angola e, em 1975, Amélia Mingas começa a dar aulas no antigo Liceu Salvador Correia, um dos ícones do sistema de ensino angolano. Do tempo em Portugal, recorda os professores Lindley Cintra (linguística geral) e Ivete Centeno (fonética) e começa a perceber, com a prática diária em Angola e Portugal e com a ajuda da teoria académica, que os angolanos também tinham "uma maneira diferente de estar na língua portuguesa". O conceito tem guiado Amélia Mingas ao longo da trajectória académica, à procura do nosso português, de Angola, e das influências das línguas e culturas locais nestes processos.

Ao longo do tempo, e depois de em 1995 se ter doutorado em França (antes concluiu a licenciatura em Lisboa, que tinha ficado para trás devido à situação política do país), tem-se dedicado a entender a especificidade dos falantes de Português em Angola. Para isso é fundamental também conhecer, ao pormenor, as línguas locais angolanas e as suas variantes regionais. 

O ACORDO ORTOGRÁFICO

"Hoje é fácil constatar que a língua dominante, em Angola, é a língua portuguesa. Isto acontece devido a várias situações. Mas, fora dos grandes centros urbanos, as línguas locais angolanas são, de longe, as mais utilizadas. Então há aqui uma série de questões que precisam de ser estudadas e compreendidas ao pormenor”, refere Amélia Mingas.

Ao longo do tempo esteve ligada ao Instituto de Línguas (afecto ao Ministério da Cultura), e mais recentemente foi a primeira estrangeira a dirigir o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, que está sedeado na cidade da Praia, em Cabo Verde, e que pertence à Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). É defensora de uma política única para a língua portuguesa, que respeite e enquadre as influências de cada país na estrutura formal do Português.

Na sua opinião, este é um dos problemas do Acordo Ortográfico, que tanta polémica tem dado. “O Acordo Ortográfico só materializa as contribuições brasileiras no Português. Há questões técnicas que não fazem sentido e que, inclusivamente, estão a pôr em causa a identidade europeia da língua portuguesa, pois ele não considera as contribuições das línguas e culturas locais, particularmente de Angola e de Moçambique”, frisa Amélia Mingas, que também foi Chefe de Departamento de Português no ISCED/Luanda e é uma das responsáveis pela cadeira de Linguística Bantu/Africana, na Faculdade de Letras, da Universidade Agostinho Neto.

Angola, que não ratificou o Acordo Ortográfico (assinado em 1992 e negociado aquando do encontro dos Chefes de Estado da CPLP, na Guiné-Bissau), tem agora um desafio pela frente. “Angola também tem vindo a contribuir, através das suas línguas e culturas locais, para a emergência de um modo próprio na sua forma de estar na língua portuguesa. É preciso estudar estas influências sob uma perspectiva científica. E eu penso que os acordos, ao nível da língua, devem respeitar os diferentes afectos e as diferentes formas de utilizar o Português”, conclui Amélia Mingas.

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