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Augusta Conchiglia

Repórter da guerrilha angolana

06/03/2012 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Março/Abril 2012)

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Fotos: Arquivo Augusta Conchiglia

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Repórter da guerrilha angolana1 de 8

O que terá motivado uma jovem jornalista italiana a sair do seu país no final dos anos 60, para ir testemunhar a guerrilha levada a cabo na parte Leste de Angola contra a ocupação colonial portuguesa? Augusta Conchiglia diz-nos quais foram essas motivações profundas e fala-nos da missão que a levou a Angola, até às picadas e chanas do Leste, sob a tensão das armas e o silêncio frio das noites dormidas em cama de terra batida.

Mas, quaisquer que tivessem sido os motivos, a divulgação pelo mundo fora da reportagem produzida por Augusta Conchiglia contribuiu para alertar a comunidade internacional sobre a opressão a que estava sujeito o povo angolano e o heroísmo de um punhado de guerrilheiros que ousava, com poucas armas e munições e uma logística ainda mais magra, enfrentar o colosso exército lusitano de ocupação. E a importância das imagens captadas pela objectiva da sua máquina fotográfica iria aportar para a posteridade o seu relevo sobre as notas do dinheiro nascido com a independência, o Kwanza.

É em plena redacção da revista “Afrique-Asie”, no nº 3 da rua de Atlas, que temos o prazer de franquear a alma de uma das mais consagradas jornalistas europeias, especializada em temas do continente africano. Passa das 18 horas, a Primavera parisiense começa a dar o ar da sua graça, as secretárias da redacção da “Afrique-Asie” estão praticamente desertas e a conversa desenrola-se, sem ruídos, sobre a linha do tempo da luta de libertação de Angola.

Com Augusta Conchiglia inicia-se uma conversa depois de Angola estar já na condição de país independente, fruto da luta que a jornalista italiana reportou, numa altura em que o horizonte político dos povos subjugados ao colonialismo português era ainda muito sombrio. Foi em Janeiro de 1968 que Augusta e o seu colega e companheiro Stefano de Stefani saíram de Roma tendo Angola como destino.

O itinerário previa duas escalas. A cadeia de televisão italiana, a RAI, para a qual os dois trabalhavam, não podia caucionar uma “entrada ilegal” na Angola dominada pelo Estado colonial português. Por isso, impôs à jornalista um contrato que contemplava uma primeira paragem no Egipto, a fim de fazer um trabalho sobre a procura do segundo túmulo na Pirâmide de Quéops, cuja pesquisa estava a ser protagonizada com a ajuda de arqueólogos soviéticos. Do Egipto, Conchiglia rumou para a Tanzânia, a segunda etapa da sua ‘tournée’ africana, onde conheceu uma série de nacionalistas angolanos.

A entrada em Angola teve como porta a Zâmbia, cuja capital – Lusaka – já constituía uma base operacional de retaguarda do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). De Lusaka, a jornalista, já acompanhada pelo comandante Toca e por um guarda, partiu dessa base e chegou à fronteira de camião, numa viagem penosa por caminhos de terra batida, com chuvas que obrigavam ao corte de troncos de árvores para colocar debaixo das rodas da viatura. Na fronteira, mais precisamente em Cassamba, um grupo de guerrilheiros encontrava-se à espera da jornalista e dos seus acompanhantes, iniciando-se a partir daí uma nova longa marcha, agora a pé, para o interior de Angola.

O grupo chegaria, primeiro, a Cazombo, localidade da província do Moxico situada na então zona B da Terceira Região Político-Militar. Augusta Conchiglia recorda-se: “o nosso objectivo era chegar até ao Caminho-de-Ferro, para filmar uns troços da linha que na altura já era pouco utilizada (devido à acção da guerrilha). Não chegámos até lá, porque entretanto fomos chamados para ir até à zona A. Acho que andámos cerca de 300 kms. Chegámos em Abril à zona A, na base Mandume II, algumas semanas depois da morte em combate do (célebre) comandante Hoji ya Henda”. Ela lembra-se de ter escutado relatos dos guerrilheiros sobreviventes do ataque português, durante o qual morreu o mítico comandante,
e até uma gravação com o ecoar dos tiros e insultos proferidos por militares portugueses.

A jornalista só regressaria à Europa em finais de Setembro de 1968, mas antes teve que sair novamente da então colónia portuguesa e voltar a entrar mais a Sul, ainda através da fronteira zambiana, para assistir a uma conferência da Terceira Região, perto de Lumbale-Lucusse – “uma zona de lagoas que se formam durante a estação das chuvas”.

QUEM ERA A AUGUSTA CONCHIGLIA NESSA ALTURA?

Com esta questão, interrompemos a narrativa sobre a guerrilha em Angola, com a promessa de retomá-la mais adiante. Ela responde: “Eu queria ser jornalista, mas sobretudo tinha o desejo de fazer documentários, filmar… Fiz um curso, paralelamente aos estudos normais, preparando-me para concretizar a ideia de ir para o Vietname, filmar a guerra. Entretanto, arranjei uma grande amizade com uma compatriota minha, intelectual e militante de esquerda, que tinha conhecido Agostinho Neto e tinha, inclusive, sido a primeira tradutora dos poemas dele, a Joyce Lussu”.

Foi Joyce Lussu quem fez publicar na Itália a primeira antologia de poemas de Agostinho Neto, sob o título “Con occhi asciutti” (Com os olhos secos). Foi também ela quem mobilizou a intelectualidade progressista em França, no seio da qual se destacava o filósofo Jean-Paul Sartre, cujas manifestações públicas forçaram o regime fascista de Oliveira Salazar a libertar Agostinho Neto da cadeia do Aljube e a colocá-lo sob residência vigiada, da qual pôde fugir para dirigir depois a luta de libertação.

Joyce Lussu persuadiu Augusta Conchiglia e Stefano de Stefani a tomarem o rumo de África, pois o Vietname era já uma referência mundial, enquanto as colónias portuguesas viviam sob a cortina do silêncio e era preciso “denunciar uma repressão armada contra os militantes da independência de Angola”. Conheceu Agostinho Neto numa passagem por Roma e, juntamente com Stefani, apresentou-lhe o programa da reportagem. Neto disse que aceitava, mas previamente deu a conhecer que “era muito, muito difícil trabalhar naquelas condições, em que a guerrilha dava os primeiros passos na Terceira Região, sendo portanto muito cansativo”.

Augusta Conchiglia era então estudante de História e Geografia. Também fez Sociologia, mas era uma realizadora em embrião, pois já vinha trabalhando, esporadicamente, para algumas revistas e chegou a fazer um curso de fotografia em Milão. O seu primeiro contrato de trabalho foi precisamente com a RAI, para uma reportagem fílmica. Conchiglia era militante da Esquerda contra a guerra do Vietname, sem filiação assumida, com uma tímida passagem pela juventude do Partido Comunista. A atmosfera universitária era muito dinâmica, com constantes debates por todo o lado, o que fazia as pessoas sentirem-se implicadas mesmo sem qualquer ligação formal partidária.

PERCURSO DA GUERRILHA

Na Zâmbia e na Tanzânia, Augusta Conchiglia entrevistou vários dirigentes do MPLA, que lhe narraram factos concretos da história do movimento de libertação, para uma melhor compreensão do fenómeno da luta. “Visitámos muitas vezes o chamado Kimbo, na periferia de Dar-es-Salam, que era a zona onde o MPLA estava e onde os familiares dos guerrilheiros se instalavam, quando passavam pela Tanzânia”,
explica a jornalista.

Travou conhecimento com figuras lendárias da luta em Angola, como Monimambo, Iko Carreira, Dino Matrosse, Rui de Matos, Armando Guinapo (que fazia cinema), Carlos Rocha Dilolwa, Ciel da Conceiçao (Gato), Pascoal Luvualu, Américo Boavida, Liberdade, Diamante e Kwenha. Desta estadia em Angola saíram reportagens filmadas e verbais, com imensas fotografias que depois foram aproveitadas, pela sua excelência de testemunho histórico documental, para reprodução sobre as notas de Kwanza, a moeda nacional após a independência (fotos de Agostinho Neto, uma escola das ‘zonas libertadas’, um guerrilheiro e mais duas outras). As reportagens foram divulgadas pela RAI TV (documentário de 25 minutos), pela revista EXPRESSO e num livro que a autora intitulou “A Guerra Popular de Angola”. Foi também produzido um filme de 80 minutos, que concorreu ao Festival Pan-Africano de 1969 na Argélia.

Mas, regressando ao ano de 1968. Em Angola, como já havíamos dito atrás, Augusta e Stefano foram conduzidos em

Agosto para Sul, para a então Zona C, no sentido de cobrirem a conferência do MPLA da Terceira Região, que teve lugar perto de Lumbale-Lucusse.

O QUE FILMOU E FOTOGRAFOU?

Se o principal objectivo era fazer a cobertura da conferência, a equipa acabou também por registar cenas de guerra: “bombardeamentos da tropa portuguesa, sem grande precisão, e um ataque dos guerrilheiros contra um posto militar”. Foi neste cenário de guerra onde morreu o médico do MPLA, o Doutor Américo Boavida.

Conchiglia elucida que, “logo após a conferência, e por causa da grande movimentação de guerrilheiros e de dirigentes, o que certamente tinha chamado a atenção das tropas coloniais, os comandantes do MPLA decidiram que devíamosevacuar. Porém, o Dr. Américo Boavida não quis deixar os guerrilheiros feridos e apenas se afastou alguns quilómetros para uma base-hospital de trânsito, onde ficou com os seus doentes para os tratar. Alguns dias depois, um helicóptero fustigou com tiros de metralhadora as cubatas da base-hospital onde estava o Dr. Américo Boavida e matou-o”.

A vida dos guerrilheiros era duríssima, devido à logística muito precária. Havia carência de armas e munições, mas também falta de comida, porque toda a estrutura tradicional popular tinha sido desestruturada. Por isso, a vida nas bases era ainda mais difícil do que a acção guerrilheira nas matas,
em termos de logística.

“Passávamos o tempo todo a comer o que comiam os guerrilheiros: a mandioca, a batata-doce, etc.”, lembra Conchiglia, tendo em conta as dificuldades de transportação de um lado para outro dos enlatados comprados previamente em Lusaka, que também facilmente se estragavam por causa do intenso calor. Conchiglia lembra-se: “a Maria Mambo Café comeu duma dessas latas e ficou doente, porque a comida estava meio estragada por causa do sol”.

IMPRESSÕES DE VIAGEM

Das impressões colhidas desta viagem, Conchiglia assinala, em primeiro lugar, que foi uma “experiência incrível” para uma jovem que vinha da Europa com grandes ideias e muito entusiasmo, e que acabava por constatar que “o romantismo de uma guerra de guerrilha não era o que se propalava”. Além das extremas dificuldades e muitos riscos, o esforço físico, em termos de fome e de marcha, era por vezes muito superior ao do perigo de guerra. “O perigo de guerra estava lá, mas os quilómetros de marcha debaixo de sol e de chuva, a falta de comida, etc., eram um peso quotidiano”. “Mas, no fundo, foi uma lição política de grande importância, porque assisti na realidade à construção dum movimento popular, à relação entre o político guerrilheiro que explicava ao povo o porquê da guerra, num discurso de mobilização essencial, porque a maior parte da gente do povo destas áreas tinha raros contactos directos com o colono, apesar de ser submetido ao imposto”.

De facto, devido a esses raros contactos, a colonização, a opressão, a humilhação e o racismo eram certamente mais sentidos nas zonas habitacionais urbanas e suburbanas. A distância era portanto um impedimento a uma tomada espontânea de consciência do povo do meio rural daquela parcela angolana. No entanto, acrescenta Augusta Conchiglia, “isso não impediu que dos povos do Leste surgissem comandantes entre os mais dedicados e experimentados do MPLA, tais como o comandante Dangereux”.

REGRESSO A ANGOLA

Como já se disse no início, Augusta Conchiglia e companheiro só terminaram o seu trabalho em finais de 1968, altura em que regressaram à Europa, depois de terem saído de Roma em Janeiro daquele ano. O trabalho resultou num documentário para a televisão e num filme com entrevistas aos guerrilheiros.

Mas, dois anos depois, em 1970, Conchiglia e Stefano retornariam a Angola com uma equipa mais numerosa para uma segunda reportagem, aproveitando até o facto de o poderio de fogo dos guerrilheiros ter aumentado de intensidade. A equipa pretendia realizar “um filme mais inspirado na Batalha de Alger”, mas versando também sobre a vida diária dos guerrilheiros, a mobilização do povo para a participação na luta e na posterior fase de reconstrução nacional.

“Queríamos um filme mais espectacular, que incluísse todo o processo, a vida dos guerrilheiros na luta e a sua acção de massas”, afirma Augusta Conchiglia, que chefiava a equipa de cinco jornalistas. Para o efeito, foi escolhido o comandante Saidy Mingas para ser o actor principal. “As filmagens começaram, as depois chegou o tempo da chuva, houve vários problemas e a equipa ficou parada muito tempo numa base”. Como se não bastasse, despoletaram conflitos de ideias no seio da equipa sobre o formato do filme, que conduziu a uma ruptura, tendo Conchiglia e Stefani mantido a concepção inicial. Muitas horas de trabalho, muito suor e muito sacrifício resultaram em filmagens, desta vez já a cores, mas cujos registos viriam a sofrer um revés: “Os guerrilheiros que transportavam o material, na travessia de uma pontezinha de tronco de árvore, caíram ao rio com todo o equipamento de som, que se perdeu irreversivelmente”.

O filme foi revelado sem som, e assim ficou até 1974, ano em que, “com a ajuda de Rui de Matos, a equipa de filmagem consegue ir a Portugal montar o filme e recriar os diálogos, já com angolanos vivendo lá”. Segundo ela, o filme ficou com “bonitas imagens e cenas muito realistas da vida no mato, mas acabou por sair dobrado por angolanos em Portugal, o que não deixa de ter alguns momentos surrealistas”, tendo em conta o contraste de linguagens rural e urbana.

Mas 1974 foi também o ano de mais um regresso, o terceiro, de Augusta Conchiglia a Angola, já depois do golpe de 25 de Abril que derrubou a ditadura em Portugal. Através do Congo- Brazzaville, penetrou na província nortenha de Cabinda, onde se encontrou com o comandante Valódia, que viria a morrer
mais tarde. Depois de Cabinda, Augusta rumou para Luanda, tendo tido a oportunidade de entrevistar dirigentes do MPLA acabados de sair da clandestinidade ou da prisão, na sequência da instauração do regime democrático em Portugal.

QUEM É AUGUSTA CONCHIGLIA HOJE?

Hoje, é uma jornalista freelancer, pois prefere ter “uma certa liberdade de acção”. Já teve um cargo de chefia na revista “Afrique-Asie”, mas de momento prefere essa liberdade para se poder desdobrar por outras publicações, como o “Le Monde Diplomatique”, onde tem um espaço sobre crítica literária. Augusta Conchiglia escreve também sobre matérias geoestratégicas para outras publicações francesas e também italianas, trabalhando ainda para grupos de reflexão africanos na Nigéria e na África do Sul sobre questões pós-conflito, tentando sempre manter-se absorvida nos assuntos profundamente ligados ao continente africano.

Essa ligação ao continente africano levou-a a dar o mais recente pulo à capital angolana, no passado mês de Dezembro, convidada para o Colóquio Internacional Sobre a História do MPLA, a propósito do 55º aniversário deste partido, onde apresentou uma comunicação precisamente sobre a sua experiencia na guerra de libertação em Angola.

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