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Canoagem em Angola

Remar ao Despertar do Sol

06/05/2011 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Maio/Junho 2011)

Fotos: Carlos Lousada

A Canoagem desportiva em Angola tem apenas dez anos, mas já conta com um palmarés de relevo: 23 medalhas em competições internacionais e uma participação olímpica. Apesar dos poucos apoios, os canoistas nacionais elevam a fasquia e pensam já em projectos de desenvolvimento do desporto com impacto na valorização das zonas rurais do país.

O dia clareia sobre as águas da baía de Luanda. Ainda aquele calor ligeiro e silencioso da cidade que, em poucas horas, se agitará em ondas frenéticas de sons, fumo, cor e gente. O mar, que também em breve será engolido pela agitação da capital angolana, é por agora prateado e reflecte as tonalidades da alvorada.

Lá onde começa a ilha de Luanda, nas águas que bordeiam o Clube Naval, pequenas canoas deslizam e remos erguem-se em movimentos sincopados. São seis da manhã de uma segunda-feira com engrenagem ainda a arrancar, mas já os músculos dos vinte canoistas federados que ali treinam todos os dias, menos aos domingos, já estão a todo o vapor.

Entre as pequenas embarcações, uma salta à vista. Vermelha e negra, as inscrições “F. Pacavira” e “Angola” pintadas a amarelo e um corpo pequeno mas robusto a fazer deslizar a canoa pela baía. “F”, de Fortunato. Fortunato Pacavira, o canoista angolano, 32 anos, o único a ser apurado para umas
Olimpíadas. Em 2008, representou as cores nacionais nos Jogos Olímpicos de Pequim. “Consegui os mínimos, e acabei por chegar à semifinal, onde fiquei em sétimo lugar”, relembra à Austral o nome maior da Canoagem nacional, que poderá já ter companhia nos próximos Jogos Olímpicos. “O objectivo da Federação é levar dois atletas a Londres, já no próximo ano”, assume o professor Francisco Freire. As águas da baía agitam-se à passagem das canoas.

Tradição e alta competição

Não há muita informação sobre a origem da Canoagem em Angola. Os registos mais antigos falam de “competições de canoas entre os pescadores, durante as festas da Ilha de Luanda e também do Dande”, conta Francisco Freire. O vencedor destas competições esporádicas, que remontam ao tempo colonial, “ganhava uma grade de cerveja”, relembra o também presidente do Conselho Técnico da Federação Angolana de Desportos Náuticos (FADEN). Memória transposta para o presente, e um dado curioso: “a maior parte dos canoistas de Luanda, como eu, ou o Pacavira, são ilhéus”, “O número de curiosos está a aumentar”, testemunha Fortunato Pacavira. A modalidade ganha também maior visibilidade durante os festivais do Clube Náutico (Fevereiro), do Clube Naval (Maio) e da Marinha (Junho). “São muitos os que já aparecem ao final da tarde, entre as 17 e as 18 horas, para saber como é a Canoagem”, assegura o canoista olímpico. Actualmente, são os Clubes Naval e Náutico de Luanda os principais responsáveis pela evolução da Canoagem desportiva. Na província de Benguela, o clube Sport Ferroviário do Lobito ainda dá os primeiros passos no processo de aprendizagem.

Apesar do interesse crescente, a FADEN controla apenas 20 atletas de Canoagem (aos quais se acrescentam 100 atletas de vela e cinco de remo). Destes, 15 treinam alta competição, apesar da “falta de estruturas de apoio suficientes”, como diz Francisco Freire. Esta situação, numa lógica de ciclo vicioso,
também “não favorece a massificação do desporto”, lamenta. Os apoios ainda não chegam.

Bandeira: Angola

Apesar das dificuldades, e da Canoagem ser uma “actividade nova” em Angola, este desporto já tem levado o nome do país muito para lá do mar que banha Luanda. Em apenas dez anos, os atletas nacionais de alta competição já venceram 23 medalhas em campeonatos africanos (seis de ouro, oito de
prata e nove de bronze). Mas o ponto alto, conta o professor Francisco Freire, foi a qualificação olímpica de Fortunato Pacavira para os JO Pequim 2008, em que o atleta chegou às meias-finais na prova de 1000 metros masculino. O ilhéu de aspecto robusto, que também já participou em três campeonatos de África e em dois do Mundo, ficou ainda em primeiro lugar nos africanos da Côte d’Ivoire, em 2009. Os resultados mostram, no entender de Francisco Freire, uma realidade inegável: “embora não tenhamos herdado a Canoagem desportiva da época colonial, hoje ela já suplantou, em termos de resultados, os restantes desportos náuticos com mais tradição, e mesmo modalidades em que se aposta muito em Angola. Das 23 medalhas que conquistámos em apenas uma década de actividade, 14 foram conseguidas de uma assentada no último Campeonato Africano, na Côte d’Ivoire. Isto por si só demonstra que este desporto tem muito potencial, apesar de ainda não ser muito valorizado no país”.

Neste momento, os atletas preparam-se para os Panafricanos de Maputo (3 a 18 de Dezembro deste ano). Uma competição que, diz o professor e presidente do conselho técnico da FADEN, “tem um significado especial: pela primeira vez, vamos ter a oportunidade de mostrar aos dirigentes angolanos que estarão presentes na competição, as nossas capacidades, e que, como mais-valia para o desporto nacional, merecemos obter mais apoio. Nunca houve uma competição de Canoagem em Angola de grande envergadura. Talvez por isso muitos responsáveis nunca tenham visto nenhuma prova desta modalidade”.

A par dos Africanos, os canoistas nacionais estão também já de olho nas Olimpíadas de Londres, em 2012, e nas do Rio de Janeiro, em 2016. As perspectivas do apuramento directo de mais angolanos para a rainha das provas internacionais aumentam à medida que, como testemunha Fortunato Pacavira, “está também a aumentar o nível competitivo dos atletas angolanos”.

O barco avança, assim, em linha recta. Para que não perca o rumo, a aposta da FADEN passa também pela formação de monitores. Graças ao “bom relacionamento” com a Federação Internacional de Canoagem, recentemente dois técnicos desta instituição – um russo e outro polaco –, formaram 19 monitores angolanos, que poderão assegurar a passagem dos conhecimentos aos mais novos.

E a primeira coisa que dirão aos recém-chegados é mais que certa: “este é um desporto muito exigente ao nível físico, é preciso ter muita força, determinação e paciência”, como conta o atleta de 19 anos Josemar Andrade. Requisitos aos quais Nazaré Neves, canoista há seis anos, acrescenta: “equilíbrio”. “Ao princípio não gostava deste desporto, porque tinha a tendência de virar a canoa a toda a hora. Depois fui praticando, aperfeiçoando a técnica e ganhei gosto”, conta o jovem que tem no palmarés a participação nos campeonatos africanos da Côte d’Ivoire, Quénia e Senegal.

Para os que quiserem conhecer melhor e praticar canoagem nas águas de Luanda, só têm que seguir a linha da costa até ao Clube Náutico ou Naval. O grupo de aprendizagem abrange atletas dos oito aos 15 anos. O grupo de aperfeiçoamento e competição vai dos 15 aos 35 anos.

AO SERVIÇO DO TURISMO

A estratégia da FADEN para o desenvolvimento da canoagem passa também por dinamizar os locais no país com condições para a prática deste tipo de desporto. Recantos perfeitos não faltam. “Angola é um país privilegiado em termo de planos de água para a prática de desportos náuticos, que podem ser praticados no mar, rios, lagos e piscinas. Este factor pode constituir um trunfo na estratégia do desenvolvimento destas modalidades”, defende Francisco Freire. Pensando para lá do horizonte, o professor defende que estes programas poderão também ajudar a “valorizar as zonas rurais do país e atrair turistas para estas localidades”. Algo comprovável com uma simples pesquisa na Internet, onde várias agências turísticas propõem travessias de rios e baías em Angola com canoas e caiaques. Uma forma diferente e divertida de conhecer as belezas naturais do país.

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