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Cinema

Dos Tempos que já lá vão....

02/09/2010 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Setembro/Outubro 2010)

Fotos: Carlos Lousada

As casas de cinema em Angola são referências das cidades que as acolhem. E são muitas, já que aquele tipo de infra-estruturas está espalhado um pouco por todo o país, tendo surgido muito antes ainda da independência do país, o que permitia às autoridades coloniais portuguesas levar entretenimento, mas sobretudo propaganda do regime, às diferentes regiões. Da história ficam os marcos arquitectónicos, o gosto pelo espectáculo e as salas multi-usos.

Luanda é a rainha dessas salas: Cinemas Miramar, Avis  (actual Karl Marx), Restauração (onde hoje funciona a Assembleia Nacional), Império (actual Atlântico), São Paulo, Nacional, Tivoli (Corimba), Tropical, Kipaka, Ngola Cine, enfim um rol de salas que não serviam apenas para a projecção de filmes, que remontam ao tempo do preto e branco, mas também para espectáculos musicais e teatrais.

Mas fora do grande centro urbano que é Luanda, quase todas as cidades acompanharam e desenvolveram os seus espaços de recriação. Em Benguela, por exemplo, o velhinho Cine Benguela e, posteriormente, o Cinema Monumental constituem importantes marcos históricos para todo o sempre daquela cidade sulana, tal como o cinema Empório na vizinha cidade do Lobito, onde surgiram depois as cine-esplanadas Lobito e Flamingo.

Nas então cidades de Nova Lisboa (Huambo), Sá da Bandeira (Lubango), Moçâmedes (Namibe), Novo Redondo (Sumbe) e Marechal Carmona (Uíge) essas salas foram surgindo e tornaram-se referências, não só devido à exibição de películas, mas também de vários outros espectáculos de animação.

Mas na altura o separatismo era imagem de marca, havendo como exemplo o que se passava no Cine Benguela, onde chegou a haver uma zona reservada a indígenas, que não podiam assistir a todos os filmes. Nos cartazes de muitos filmes vinha explícito: “Interdito a Indígenas” – uma situação
só viria a desaparecer depois de 1961.

No entanto, torna-se importante destacar a forma de concepção da construção das casas de cinema. Se, num primeiro momento, sobretudo em Luanda e Benguela, se investiu nas salas tradicionais fechadas, na década de 60 apostou-se no conceito das cine-esplanadas, que se adaptavam muito melhor aos seus climas quentes.

Mas o surgimento das cine-esplanadas foi também uma forma de trazer elegância, ainda mais elegância, ao acto de ir ao cinema. O Cine Miramar constitui um bom exemplo – situado no alto da encosta com vista para a ilha de Luanda, com a Marginal a seus pés. Paradoxalmente, hoje o seu telão está praticamente abandonado, servindo apenas o palco para acolher alguns concertos e actividades lúdicas, com serviço de restaurante-bar em esplanada.

É um cenário que se repete em Benguela, onde o exemplo é o Cine Kalunga – anfiteatro dos anos 60 a céu aberto com as cadeiras colocadas ao estilo tradicional, rodeado de um bonito jardim. Porém, nos dias de hoje raramente se exibem longas-metragens naquela casa. Actualmente apenas se regista um rebuliço, por conta da música alta das festas juvenis, espectáculos de moda e do restaurante. Mas pouco ou nada se verifica em matéria de cinema, de sétima arte...

E se em algumas poucas casas de cinema de Luanda ainda se vão projectando algumas fitas, as que mais ordenam são as de filmes de acção, com preferência para actores como Rambo e Jean-Claude Van Damme, em grandes acrobacias violentas e fantasiosas. O público é maioritariamente juvenil, com salas bastante concorridas aos fins-de-semana nos bairros, onde a preferência também recai para algum romantismo.

Portanto, é possível constatar que, sobretudo nos subúrbios da capital, o gosto pelo cinema se mantém entre a juventude– uma geração nova que vai retratando as suas vivências e frustrações diárias através da onda de algum “cinema”, feito por produtores amadores, tendo como pano de fundo o sabor do estilo musical Kuduro.

Tecnicamente débil, esta onda tem tido o mérito de reactivar alguns circuitos de cinema, aproveitando até mesmo infraestruturas de nível elevado, muitas delas abandonadas à sorte das "raves" e das festas juvenis.

Entretanto, procurando superar a degradação das casas de cinema e a invasão das novas tecnologias, como vídeos cassete e DVD nos domicílios, começam a surgir novas salas de exibição, como é o caso do Cineplace Belas Shopping, inaugurado em Março de 2007. É um complexo com oito salas de cinema em formato Stadium com um total de 1.154 lugares, o que faz pensar numa nova era para os cinemas em Angola.

Um pouco de história

O filme O Caminho-de-ferro de Benguela, realizado por Artur Pereira em 1913, é o primeiro registo datado de cinema de curta-metragem em Angola. Até ao final dos anos 1940, foram produzidos inúmeros documentários muito virados para o “exotismo” das paisagens, usos, costumes e culturas dos povos, bem como o registo do crescimento e desenvolvimento do império colonial português em África.

Os registos também indicam que a primeira longa-metragem de ficção se chamou O Feitiço do Império (1940), de António Lopes Ribeiro.

Durante as décadas de 1950 e 1960, prosseguiu-se com a produção de documentários, sob responsabilidade do então Serviço Cartográfico do Exército, Centro de Informação e Turismo de Angola (CITA), Telecine-Moro e Cinangola Filmes. Em 1971, surge o documentário “Angola, na Guerra e no Progresso”, do tenente português Quirino Simões, considerado o primeiro filme português em formato de 70mm.

Aliás, é no período da guerra colonial que se regista o maior número de produções de ficção, uma vez que a guerrilha anti-colonial, conduzida pelo MPLA, também esteve na frente da produção dos filmes Monangambê (1971) e Sambizanga (1972), de Sarah Maldoror, inspirados em obras de Luandino Vieira, projectados nas salas de cinema do país apenas após a independência.

Angola independente herdou, a 11 de Novembro de 1975, um total de 51 salas de cinema, sendo dezassete em Luanda, sete em Benguela, três no Huambo, três no Namibe, três no Uíge, três no Bié, três no Kuanza-Norte, três no Kuanza-sul, duas na Huíla, duas em Cabinda, uma para as províncias da Lunda-Sul, Lunda-Norte, Kuando Kubango, Moxico e Zaire.

Luanda já contava nos anos quarenta com o cine-teatro Nacional, mas também com o não menos célebre cinema Restauração, cujo público viu actuar artistas de renome internacional, como o francês Charles Aznavour, a fadista portuguesa Amália Rodrigues, Duo Ouro Negro, de Angola, espectáculos de ópera e de bailado. Mas o Restauração também se celebrizou com o espectáculo de variedades “Chá das Seis”, apresentado por Artur Peres e Alice Cruz. O que dizer do cine-dancing Tropical, que realizava semanalmente o serão musical “Caixinha de Surpresas”?

O cinema Avis fez a sua aparição no Bairro Alvalade, com uma cerimónia de inauguração proporcionada pela pequena cantante espanhola Marisol. Esta casa tornar-se-ia, entretanto, mais célebre, por ser palco dos concursos de Miss Angola, a primeira das quais, a conhecida Riquita, nascida no Namibe, viria também a tornar-se em Miss Portugal, nos anos 70. Foi também nesta década que o Avis se notabilizou ao apresentar o célebre espectáculo musical “Hair”.

Já o cinema Miramar veio revolucionar o panorama dos espectáculos, ao começar a apresentar, em 1962, o espectáculo Cazumbi, realizado por Luís Montês. Foi aqui também que os Jograis de São Paulo actuaram em espectáculos que fizeram história na cultura angolana.

O Império foi inaugurado em 1966 com a estreia em território nacional do filme “My Fair Lady”. Este cinema ganhou grande popularidade entre os jovens com a realização, aos sábados à tarde, de festivais de rock, que atraíam milhares de espectadores.

Em matéria de artes cénicas, surgiria em 1968 em Luanda o Teatro Avenida, que se juntou ao “velhinho” Cine-Teatro Nacional, que ainda hoje existe e está sob a responsabilidade da Associação Cultural Chá de Caxinde, que ali mantém uma programação ainda virada para espectáculos teatrais e musicais. Mas também não se pode deixar de falar das duas salas dos Cines Alfa 1 e 2, que também serviram como estúdios para programas infantis de televisão.

Porém, fora dos espaços frequentados pela elite colonial portuguesa e angolana, o N'gola Cine era referência em matéria de espectáculos culturais semanais com artistas angolanos, muitos dos quais se tornaram internacionalmente famosos.

Mas também se destacaram outras salas mais ao alcance dos bolsos do povo, como é o caso do Cine Colonial em Luanda. Supremamente conhecido como “Clô Clô”, no bairro de S.Paulo, quando esgotada a sua lotação, servia uma cadeira trazida de casa ou mesmo a utilização do chão como assento.

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