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Conferência de Berlim e "Diáspora Cokwe"

04/03/2014 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Março/Abril 2014)

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Fotos: Carlos Lousada e Arquivo

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Não obstante a irreversibilidade do processo histórico, há factos que, pela sua repercussão e transversalidade, obrigam a uma imersão no passado, na expectativa de que a sua compreensão ajude a melhor equacionar o presente. É o caso da Conferência de Berlim que, no fim do século 19, finda a hemorragia escravocrata diaspória dos melhores filhos de África, permite às potências europeias encetar a disputa, partilha e ocupação de África, transformando-a num conjunto de territórios disfuncionais. Dir-se-ia que agiam como se o continente fosse terra de ninguém, com total desapreço pelos povos existentes, amordaçados desde então numa invisibilidade quase intransponível. Nesta conjuntura, o coração da terra Lunda é repartido entre a Angola portuguesa, o Estado Livre do Congo do rei Leopoldo II da Bélgica e o noroeste da britânica Rodésia que, após as independências, tornam-se Angola, República do Congo e Zâmbia, respetivamente. Esta divisão traz consigo a limitação da circulação das pessoas entre as diferentes fronteiras, apesar de constituírem um único povo. As guerras sucedâneas que obrigam à participação de povos do mesmo império Lunda Cokwe, tanto de um como de outro lado das fronteiras, leva a que "gente da mesma tribo e até clãs familiares se tivessem defrontado no teatro militar e muitos encontrassem a morte", como relatou amargamente um ex-militar das antigas FAPLA.

Inexistência de fronteira cultural entre as zonas

Todavia, a dispersão de um império por três países, protagonizada pela Conferência de Berlim, não consegue extinguir os laços históricos e de "consanguinidade" na perspetiva territorial, entre os povos. As linhas fronteiriças traçadas, enquanto marcos exógenos, são restritivas mas as populações continuam a fazer as suas vidas no âmbito da identidade cultural comum, bem visível a nível das artes. Especialistas, depois de terem visitado artistas na região angolana, fizeram a travessia da fronteira, respeitando as regras migratórias, e encontraram muitos traços convergentes e semelhantes que indiciam uma raiz comum entre os Lundas, desde a forma de execução das peças e artefactos até a mais simples forma tradicional de conceção, armazenamento e comercialização de blocos destinados a construção de casas. O império Lunda Cokwe era constituído não só por bravos guerreiros, caçadores e comerciantes mas também por muitos artífices de uma execução estética esmerada, com maior vocação para a escultura de carácter decorativo e de temática social, arte mágico-religiosa, arte de decoração corporal, cestaria, fundição tradicional e forja do ferro. A separação de muitas famílias conduz a uma dolorosa perda de partes dos seus bens, quer materiais quer espirituais, representativas da riqueza coletiva do povo. No seu trabalho de campo, os especialistas atrás referidos sentiram também que a atividade artística na região Lunda está a pagar um fardo muito pesado, com a fuga dos fazedores de artes para outras áreas, motivada pela necessidade de sustentação familiar e subsistência diária, tendo as artes passado de atividade artística primária a secundária, contrariando o que sempre foi costume na região, em que o artista ocupava um papel especialíssimo no império Lunda Cokwe.

O papel das artes em África

Na África ancestral as artes não são meras criações estéticas. Com efeito, assumem um relevo importante em rituais, representando a vida e a morte, a passagem da infância à vida adulta, a celebração de uma nova colheita e o começo da estação da caça. As máscaras produzidas transmitem sempre algum significado para a comunidade, de forma geral, e para cada pessoa, de forma singular. Na cultura Lunda Cokwe a máscara e o mascarado passam a ser uma só pessoa a partir do momento em que o mascarado se reveste dela, ou seja, este encarna o peso, a carga espiritual e simbólica da máscara. Os artistas encarregues de executar as máscaras deste calibre devem ser os melhores e dentro do ciclo das pessoas de confiança dos soberanos ou do conselho de pessoas, que se reúnem sempre à volta do jango com o Soba. Por esta razão é que, no império Lunda Cokwe, as máscaras são de um requinte estético elevado. Porém, as produções artísticas mais criativas desta cultura acabaram por ser vítimas de formas injustas e ilegais de apropriação, tendo sido levadas para o exterior para comercialização.

Arte Cokwe da Diáspora

Manuel Laranjeira (2010), retirando do conceito de diáspora a noção de "valores culturais desligados das pessoas que os produziram", pronuncia-se sobre a "Arte Cokwe da Diáspora". Refere-se principalmente "a peças de escultura, de origem Cokwe ou de populações da mesma área cultural, que saíram de Angola nas mais diversas circunstâncias: levadas por viajantes que as adquiriram por oferta, por troca, por compra, até por pilhagem, etc., objetos esses que estão dispersos (diáspora) por diversos pontos do mundo, principalmente em diferentes coleções europeias, públicas (como é o caso dos antigos museus coloniais) ou coleções privadas das mais diversas proveniências". Para a divulgação e proteção do património artístico deste povo, contribuiu decisivamente a ação da investigadora francesa Marie-Louise Bastin.
Investigação de M. L. Bastin

Após conclusão e publicação do seu trabalho sobre as coleções do Museu do Dundo, segundo Manuel Laranjeira (2010), M. L. Bastin lança-se à procura e identificação de peças de Arte Cokwe em todas as coleções de arte africana que pode contactar. Trata-se de uma pesquisa que durou quatro décadas (a investigadora faleceu no ano 2000) e que permitiu" acumular um imenso património intelectual, único a nível mundial, de documentação sobre a arte dos Cokwe e das populações culturalmente afins, nomeadamente Lwinbi, Songo, Lwena, Lucazi, Ovimbundu, Ngangela".

Foi o seu grande colaborador Elias Mwacefo, chefe de aldeia e filho de um prestigiado chefe na sociedade tradicional, que lhe desvendou os costumes, as técnicas e os valores subjacentes às expressões artísticas objeto do seu estudo. Depois deste conhecimento empírico, pormenorizadamente apresentado na obra "Arte Decorativa Cokwe", publicada em francês em 1961, a especialista prosseguiu com o estudo de outras peças de Arte Cokwe fora de Angola. Assim aparecem os seus numerosos artigos científicos em revistas da especialidade, como "Arts d'Afrique Noire" (Paris), "African Arts" (Los Angeles) e outras.

Pelo seu valor e competência, em 1972 é convidada para professora de arte africana na Universidade Livre de Bruxelas. Para Laranjeira (2010), "a familiaridade com as peças de arte africana do museu do Dundo levaram-na a um sentido crítico e a um olhar atento sobre o mundo, por vezes ambíguo, do comércio da arte, em particular da arte africana". Dada a sua competência neste campo, potenciais colecionadores e compradores efetuam-lhe pedidos de pareceres, tendo ficado surpreendida com imagens de publicidade para venda de peças que lhe eram familiares.
Dispersão mundial ou primeira diáspora.

Investigando as coleções angolanas, primeiro na Europa e depois nos Estados Unidos e Canadá, M.L. Bastin enriqueceu a sua documentação e assim foi possível reunir milhares de fotografias para estudos posteriores e esclarecimento de dúvidas. Procurou obras de arte, arte refinada, que classificava como arte de corte, inventariando o que de melhor os Cokwe produziram no auge da sua expansão política em meados do seculo XIX. M. L. Bastin destaca sobretudo as pecas evocativas do herói – fundador Cibinda Ilunga e de grandes e prestigiados chefes que chamavam a si os mais exímios escultores.

Circulação ilegal ou segunda diáspora

M. L. Bastin deu um contributo muito importante e significativo em defesa da Arte Cokwe, ao alertar para a procura de peças que pertenciam a museus e de onde saíram ilegalmente. "É um segundo tipo de diáspora só detetável por verdadeiros conhecedores da matéria" (idem, 2010). Há casos de sucesso, em que as peças voltaram para o lugar de onde saíram ilegalmente. Mas a maioria ainda não apareceu, pelo que se impõe a continuação da divulgação das peças desaparecidas, na expectativa de que possam vir a ser recuperadas. Um caso emblemático de sucesso é o da estatueta de Cibinda Ilunga Katele, estudada por M. L. Bastin em 1956. Comparando as suas fotos com as do colecionador comprador que pedia informações, apesar de a peça ter sido parcialmente mutilada para fraude comercial, foi possível a sua identificação. A especialista já tinha informado o International Council of Museums - ICOM na sequência da publicação da obra "Cent Objets Disparus. Pillage en Afrique". A Polícia francesa apreendeu a obra e estabeleceram-se contactos com o vendedor, para que o objeto pudesse voltar a Angola". (Ibidem, 2010).

Pseudo Arte Cokwe

Nos circuitos comerciais, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, há "um conjunto numeroso de peças, ditas Cokwe, à venda a colecionadores e antiquários, mas que não são peças vindas de África, nem necessariamente feitas por africanos: "é o comércio pujante de cópias das melhores peças Cokwe, feitas por habilidosos que muitas vezes nem sequer viram as peças originais conservadas em museus, que procuram imitar" (Laranjeira, 2010). As cópias das peças Cokwe são efetuadas a partir de imagens de catálogos da especialidade. O aspeto negativo verifica-se apenas quando se procura ocultar que são simplesmente cópias e se pretende atribuir, a estes objetos, datas e características que nada têm a ver com a realidade. Esta produção de pseudo - Arte Cokwe continua próspera e cria a ideia falsa de uma produção de obras de arte permanente, como se continuássemos a viver no século XIX, época da sua maior expressão. É contraproducente impor no século XXI uma arte de outra época, já que os artistas não pararam no tempo, nem estão à margem das transformações políticas, económicas e sociais que entretanto se processaram. Finalmente, (idem, 2010), "todo este património documental de uma vida de pesquisa (milhares de fotografias, muitos diapositivos, abundante correspondência científica, para além da sua biblioteca particular - 1239 publicações - sobre arte africana), foi doado ao Museu Antropológico da Universidade de Coimbra, hoje integrado no Museu da Ciência da mesma Universidade".

Referências Bibliográficas

BASTIN, Marie-Louise (2010), Arte Decorativa Cokwe, Museu Antropológico da Universidade de Coimbra e Museu do Dundu, 2 volumes, Coimbra CAPITANGO, Gilberto (2013) Das Chanas do Leste uma Arte que Vigora a Força e a Estética do Guerreiro Lunda Cokwe, texto inédito, Luanda I.C.O.M (1997) Cent objets disparus / One hundred missing objects: Pillage en Afrique / Looting in Africa, Paris. LARANJEIRA, Manuel (2010) Arte Cokwe da Diáspora, comunicação apresentada no colóquio "A Arte na Sociedade Cokwe e nas Ccomunidades Circunvizinhas" Organização ESCOM, Luanda.

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