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Festivais, Concursos e Dinamização Artística

03/10/2014 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Setembro/Outubro 2014)

Fotos: Arquivo

Com o FENACULT igualmente renasce a esperança dos artistas. Os sonhos adiados ressurgem. É uma celebração dos amantes da Arte, que aguardam com expectativa a concretização dos seus anseios mais profundos. Os Festivais e Concursos, por facilitarem a materialização de muitos objetivos, deveriam ser realizados com regularidade. Em nome da valorização da cultura local. Em nome da necessidade de integração no mundo global.

MUNDIVIDÊNCIA TRADICIONAL

A História de África, de per si, justifica esta premência, porque a chegada dos europeus ao continente-berço originou uma série de mudanças socioculturais. Segundo Lévi Strauss (1989), a introdução da escrita e o advento do individualismo ofuscaram o papel de linguagem que a arte ocupa nas sociedades tradicionais.

Para este antropólogo francês, a arte ocidental tende para a representação, ao passo que a arte das sociedades tradicionais, ao invés de reproduzir modelos, comunica, funcionando como um sistema de signos.

Por outro lado, a receção artística é mais individualizada nas sociedades ocidentais ou ocidentalizadas. Nas sociedades tradicionais africanas, ao contrário, é a coletividade que espera que o artista lhe forneça certos objetos, confecionados de acordo com os cânones e códigos culturais (Lévi-Strauss, 1989).

Cada indivíduo é parte de um todo ligado ao cosmos numa eterna busca pela harmonia e de equilíbrio. Dir-se-ia que, para a sobrevivência da comunidade, cada um deve participar respeitando o papel que lhe pertence a nível espiritual e terreno.

As civilizações africanas têm uma visão holística e simbólica da vida. E a memória também é fundamental. É a da tradição, da ancestralidade, do antigo equilíbrio da natureza, em que não existiam diferenças nem separação entre o mundo dos seres humanos e o do além.

SOBRE AS ARTES TRADICIONAIS

As máscaras são as formas mais conhecidas da plástica africana. Não são concebidas para serem contempladas como obras de arte, mas sim para serem utilizadas por ocasião de cerimónias rituais, sociais ou religiosas.

O seu carácter estético reside na forma e não no fim ou no conteúdo. Isso significa que a arte não é um fim em si mesmo, mas um meio para se alcançar um certo fim.

Relativamente à dança africana, sempre ligada à música e valorizando a coletividade, constitui um texto formado por várias camadas de sentidos.
Caracterizada pela repetição do padrão musical; dos movimentos; do mesmo ato ou gesto que pode ser interpretado como atribuição à ação um carácter atemporal e de criação continua.

PROCESSO HISTÓRICO IRREVERSÍVEL

Deve-se ter sempre presente que na África pré-colonial predominava a oralidade e havia a existência de vários reinos, que foram desarticulados com a colonização.

E desde então tem havido dificuldade de adaptação aos conhecimentos exógenos, sobretudo se forem impostos de forma abrupta. Com as independências, tenta-se restaurar o que se perdeu, mas as condições históricas já não são as mesmas.

Há dificuldade de recuperação das artes tradicionais e o que se verifica atualmente é o predomínio das culturas populares urbanas e suburbanas.
Os artistas africanos estão cheios de energia e produzem, porém vivem em condições penosas.

Os mais talentosos têm muito poucos locais onde mostrar o seu trabalho e, na maioria das vezes, dependem de uma estrutura ocidental. Para melhor visibilidade, é necessário haver o maior número possível de estruturas para que possam mostrar o seu trabalho nos seus próprios países. Os festivais e concursos têm sido uma das soluções.

DIFICULDADES NA TRANSIÇÃO

A sociedade africana foi gravemente abalado no seu encontro com o ocidente, porque predominaram os interesses mercantis que ajudaram a romper o equilíbrio das sociedades africanas tradicionais, das suas economias e dos laços políticos tradicionais.

A desintegração da família provoca a degeneração moral e espiritual e a vida nas novas sociedades urbanas torna-se difícil, por causa do alto custo de vida e da nova situação de competição da economia urbana, diferente da cooperação económica tradicional.

Esta mudança não só desintegra todo um conjunto de valores que constituem a coerência interna da sociedade tradicional Africana, mas também conduz ao gradual enfraquecimento e colapso das estruturas sociais rurais do país.

É que quando regressam à aldeia, a vida habitual deixa de satisfazer as aspirações das novas gerações, após terem conhecido as condições de vida e de salário dos centros urbanos. Assim, na economia de mercado onde a África está integrada, os padrões económicos podem constituir um sistema de subversão dos valores de referência da sociedade tradicional.

Há necessidade de se construírem pontes que permitam a transição do tradicional para o contemporâneo, sem traumas. Os festivais podem constituir uma boa alternativa por valorizarem a auto estima, a formação e o diálogo.

AFINIDADES ENTRE O TRADICIONAL E O CONTEMPORÂNEO

Apesar do espírito coletivo e do papel da repetição nas sociedades tradicionais ser o oposto do espírito individual e singular da sociedade atual, há afinidades entre a arte tradicional e a contemporânea ocidental.

Em ambas, as fronteiras entre as diferentes artes são ténues e é valorizado o simbolismo. Alguns artistas europeus, como por exemplo Picasso e Matisse, revelam influência da arte africana nas suas obras. Por outro lado, há a atração dos africanos por muitas manifestações da arte contemporânea, tal como a busca de novas técnicas, o questionamento da sociedade e a revolta contra o estilo de vida fútil, a consciência ecológica e o reaproveitamento de materiais.

BENEFÍCIOS DOS FESTIVAIS

Há festivais importantes em Angola e em África, possibilitando a participação de todos os públicos. Estes, juntamente com os concursos, workshops e residências artísticas têm apresentado vantagens, facilitando o diálogo entre as correntes, estilos e artes e valorizando o ensino não-formal e informal.

Têm contribuído também para o desenvolvimento da criação artística, em especial no campo da Arte Contemporânea. Em África há exemplos de eventos emblemáticos, como o Festival Mundial de Artes Negras (FESMAN); o Mercado de Artes do Espetáculo Africano (MASA); o Festival Pan-Africano de Cinema e Televisão de Ouagadougou (FESPACO); os Encontros de Fotografia Africana de Bamako, assim como os Encontros Coreográficos, organizados pela Afrique Créations, que tem promovido o desenvolvimento de expressões culturais africanas contemporâneas.

EVENTOS EM ANGOLA

Em Angola realizam-se vários eventos, mas é de sublinhar o concurso bienal de Artes Plásticas ­ ENSARTE ­ e a Trienal de Luanda. Sindika Dokolo é detentor de uma das mais importantes coleções de arte contemporânea em África, a Colecção Africana de Arte Contemporânea Sindika Dokolo (SDACCA ­ Sindika Dokolo African Collection of Contemporary Art).

Foi o principal pilar da organização da I Trienal de Luanda: TACCA ­ Territórios de Arte e Cultura Contemporânea Africana, que decorreu de Novembro 2005 a Maio de 2006, com organização de Fernando Alvim.

Fizeram parte dela obras de alguns dos mais notáveis artistas africanos com visibilidade internacional. De igual importância foi o apoio e a plataforma disponibilizados a artistas angolanos menos conhecidos e que vieram a revelar-se e a impor-se ulteriormente, tal como Kiluanji Kia Henda, Lhosvany, Yonamine, Lino Damião, Tó Simões, entre outros jovens. A II Trienal de Luanda: Geografia Emocionais ­ Arte e Afetos, organizada pela Fundação Sindika Dokolo com direcção artística de Fernando Alvim, teve como curador Simon Njami, um crítico de arte independente, co-fundador da revista de arte francesa Revue Noire e Consultor de Arte da Fundação Sindika Dokolo.

Dentre os vários jovens artistas angolanos participantes, destaca-se o nome de Edson Chagas que com a obra "Luanda Enciclopédica" seria premiado com o "Leão de Ouro" na Bienal de Veneza 2013.

Todavia há cada vez mais jovens artistas angolanos das diversas especialidades que se preocupam em mergulhar na contemporaneidade.
É o caso de Adriano Mixinge na Literatura; Mwamby Wassaky na Moda; Nástio Mosquito e Jack Nkanga na música e os veteranos sempre jovens Ana Clara Guerra Marques na Dança, António Ole e Etona nas Artes Plásticas ou ainda a Geração 80 no Cinema.

Embora não mencionados, Angola tem uma plêiade de artistas plásticos de grande nível, cujas obras, no geral, integram o acervo da ENSA.
A Fotografia Artística também tem tido uma maior visibilidade e apresentado grandes nomes, após as trienais de Luanda e com o Projecto Vidrul Fotografia.

Para o desenvolvimento da Instalação, muito tem contribuído as Residências Artísticas organizadas pela empresa Adriano Maia Internacional.
O ponto de encontro de eleição para todos estes artistas, preocupados com a contemporaneidade, tem sido o Espaço Cultural Elinga.
O II FENACULT 2014 comporta a realização de actividades multiculturais, em todo o espaço nacional. O I Fenacult realizou-se em 1989.

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