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Gabela

Quanto ela é bela…

05/09/2010 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Setembro/Outubro 2010)

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Fotos: Carlos Lousada

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Fotos: Carlos Lousada1 de 10

O seu nome de origem é N'Guebela, fundada a 28 de Setembro de 1907, há 103 anos. Com o andar do tempo, sob influência da língua portuguesa, o seu nome ‘evoluiu’ para Gabela – terra acolhedora e de belas paisagens, clima ameno nos seus mais de mil metros acima do nível do mar.

Sede do município de Amboim, na província do Kuanza-Sul, a Gabela é dominada pelo verdejante morro do Cruzeiro, onde permanece um velho fortim colonial português, fornecendo ainda, na estrada que lhe dá acesso, o espectáculo natural das quedas de água de Binga, no rio Keve.

Foi até aos anos 70 uma das mais prósperas terras angolanas com as suas plantações de café, que chegou a ter títulos de um dos melhores do mundo, e floresciam em fazendas agrícolas constituindo verdadeiras povoações – propriedades da então toda-poderosa Companhia Angolana de Agricultura (CADA).

Nos arredores da Gabela, a escassos sete quilómetros, situa-se a pequena vila Boa Entrada, antiga sede da companhia CADA, que devido à produção do café (agora abandonado e seco pelo tempo) era bafejada pelo Caminho de ferro do Amboim (CFA), construído entre 1923 a 1941, com os comboios a fazerem o transporte do fruto até Porto Amboim, no litoral (antes era escoado por caravanas de nativos), com destino à Holanda, Bélgica, Inglaterra e Estados Unidos.

Mas, segundo registos históricos, o objectivo inicial dos colonos portugueses não era o café, pois os dois primeiros homens brancos a chegarem à região em 1888, provenientes de Porto Amboim, tinham como objectivo abrir uma empresa de comércio de tecido, cera, marfim e borracha.

Posteriormente, comerciantes, missionários e militares portugueses apropriaram-se das plantações de café dos nativos da região, tornando-se em novos proprietários, o que provocou várias e grandes revoltas. Reza a história que a primeira revolta aconteceu em 1893, quando foram queimadas fazendas
de café e envenenados os patrões. As outras registaram-se de 1895 a 1896 e em 1917, o que obrigou grande parte dos portugueses a refugiar-se em Porto Amboim.

Perante a queixa dos colonos de inércia do Governo português face à denominada “fúria dos indígenas”, intervenções militares conseguiram conter as revoltas, permitindo que Norton de Matos, duas vezes governador de Angola (1912/1915 e 1921/1923) abrisse estradas utilizando mão-de obra indígena a golpes de enxadas, catanas e picaretas e edificasse a vila Boa Entrada.

Descrições apaixonadas descrevem: “Boa Entrada era a menina dos olhos do Amboim-Gabela. Com as suas vivendas construídas à moda californiana, os seus bairros bem ordenados urbanisticamente: bairro residencial para quadros superiores, bairro dos operários, hospital, clube, piscina, cine, biblioteca, campo de futebol, tiro aos pombos, barragem eléctrica própria... Enfim, era aquele paraíso onde se podia viver e morrer sem necessidade de ir à cata de novos céus!”

As descrições acrescentam: “Não foi por acaso que o poeta Agostinho Neto lá foi... talvez para aflorar com a sua poderosa pena de escritor os céus ali tão pertinhos!”. Hoje em dia, os céus já não estarão tão pertinhos, pois a terra já não oferece o espectáculo deslumbrante do café em flor, pelo facto de ter sido bastante atingida pela calamidade da guerra.

Aliás aquela região, na ponte sobre o rio Keve, na estrada Quibala – Gabela, foi palco de uma das batalhas mais pesadas da guerra, onde foi travado o avanço das forças invasoras do então regime sul-africano.

Hoje em dia, vêem-se os cerca de 150 mil habitantes da Gabela, a 95 quilómetros do Sumbe (capital provincial) a dedicarem-se à agricultura de subsistência e à revenda de vários produtos, mas com engajamento das autoridades na revitalização da produção do café.

Com o apoio do Instituto Nacional do Café, introduzem-se novas espécies e melhoram-se os viveiros, no sentido de contribuir para que Angola regresse à condição de quarto produtor mundial do bago vermelho e para que o colorido das suas flores volte a alegrar a sua paisagem e delicie os visitantes, que dispõem de uma estrada em boas condições e permite uma viagem em poucas horas.

Pelo caminho, depois do Sumbe, o visitante deliciar-se-á com a Cachoeira do Binga, no Rio Keve, onde poderá relaxar num pequeno parque junto às quedas de água, com ressaltos que provocam um mar de espuma branca, num cenário dominado pelo verde da vegetação nas margens do rio.

Já dentro da cidade, a visão concentra-se no Morro do Cruzeiro (ou Catengue), que domina toda a cidade, onde o que prende as atenções é um fortim, onde os portugueses ter-se-ão abrigado na sequência da “fúria dos indígenas” de 1917, antes da fuga para Porto Amboim.

Existem pelo menos duas versões acerca da origem do nome Gabela. Segundo soubemos durante a nossa visita àquela cidade, uma dessas versões assenta no facto de os dois primeiros colonos portugueses que chegaram à área terem lá encontrado uma velha mulher chamada N’Guebela. Terão sido os portugueses Ernesto da Silva Melo e António do Couto que, em 1888, perguntaram pelo nome do local, ao que a velha deu o seu próprio nome, por falta de entendimento.

A outra versão sustenta que o nome provém do morro do Catengue, actual morro do Cruzeiro, onde ter-se-á escondido o Soba (chefe tribal) fugindo da perseguição do homem branco. Conforme soubemos, a palavra N’Guebela significa “refúgio” ou “esquiva”, e teria sido no morro onde o Soba se “esquivara” da perseguição.

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