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Livros ao Dispor dos Leitores

06/07/2014 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Julho/Agosto 2014)

© Revista Austral

A poesia foi nota dominante na festa dos 90 anos do nascimento do já falecido poeta Agostinho Neto, no mês de Maio. A propósito, foram lançados o livro de poesia "A Noção de Ser" e o DVD "Portugueses Falam de Agostinho Neto" em memória daquele que, além de poeta, foi o primeiro Presidente de Angola independente.

A iniciativa coube à Associação António Agostinho Neto (FAAN), presidida pela viúva, Maria Eugénia Neto, que convidou para a edição e apresentação das obras os académicos portugueses Pires Laranjeira e Ana Rocha. O livro, com mais de 800 páginas, é uma colectânea de 65 textos analíticos sobre a poesia de Neto, assinados por 62 autores, entre professores universitários, escritores, jornalistas de Angola e de vários outros países, publicados nos últimos 40 anos.

Na opinião de Pires Laranjeira, "o livro procura mostrar o mais amplamente possível os vários tipos de recebimento da obra de Agostinho Neto". A seu ver, "a obra de Neto dá conta e descreve a situação do povo angolano sob o regime colonial, as suas aspirações, alienações, sofrimento, as punições e a repressão nos musseques (bairros pobres) ".

O DVD reúne testemunhos audiovisuais de políticos e intelectuais portugueses sobre a trajectória e a dimensão política, cultural e humana de Agostinho Neto. As figuras entrevistadas no DVD são Ramalho Eanes, Mário Soares, Almeida Santos, Carlos Veiga Pereira, Domingos Abrantes, Pezarat Correia, Gonçalves Ribeiro, Jaime Serra, Aurélio Santos, Fernando Rosas e Silas Cerqueira. Em Abril, o livro e o DVD já haviam sido lançados em Lisboa, Porto e Coimbra (Portugal), com apresentação do ex-presidente daquele país, Ramalho Eanes, e do escritor angolano Luandino Vieira.

As marcas da guerra
NO REINO DAS CASUARINAS
A guerra que avassalou território angolano vai-se mantendo presente nas obras dos escribas, tanto nacionais como estrangeiros. Reflectindo as profundas marcas por ela deixadas, a herança da guerra está reflectida em quatro recentes livros. O tema percorre as páginas do romance "O Reino das Casuarinas", lançado no mês de Junho, onde o escritor José Luís Mendonça relata a história de sete angolanos vítimas do "síndroma de amnésia auto-adquirida", provocada por traumas que viveram durante a guerra em Angola.

O livro "evoca episódios desde a guerra colonial à independência, passando pelo conflito interno pós-independência, até às dissidências internas político-religiosas". José Luís Mendonça, licenciado em Direito, é jornalista de profissão e edita o quinzenário "Cultura ­ Jornal Angolano de Artes e Letras". Poeta por excelência, a sua obra de poesia "Chuva Novembrina" ganhou o Prémio Sagrada Esperança em 1981. "Gíria de Cacimbo" (1987) e "Respirar as Mãos na Pedra" (Prémio Sonangol 1988), foram outros títulos poéticos por ele lançados.

LENDA COM SABOR REAL

A guerra também está presente no romance "Tala Mungongo", lançado em Abril por Filipe Correia de Sá, que interliga o mundo real e o imaginário. Trata-se da adaptação de uma lenda angolana que tem lugar em Tala Mungongo, "terra fértil onde havia muitos bichos para caçar (...) entre paz e sossego. (...) Foi então que a guerra chegou de repente e trouxe o sofrimento. O chefe decidiu então que seria melhor ganharem a montanha para salvar o que ainda fosse possível. (...) No ponto mais alto da cordilheira (de Tala Mungongo), onde se viam o fumo e o fogo dos campos incendiados em sangue (...), chamou os seus últimos guerreiros e desceu para retomar o combate".

O livro foi editado pela primeira vez há 19 anos em Cabo Verde, onde Filipe Correia de Sá foi director adjunto da Televisão cabo-verdiana, assessor de imprensa do Jornal "Voz di Povo", fundador e director do semanário "Correio 15". Também já trabalhou na BBC de Londres e foi director-geral da estação angolana TV Zimbo.

HISTÓRIA DE UM SONHO
Também o escritor português António Chaves não fugiu à temática e lançou o título "Em Armas pelo Sonho do Imperio", que conta "um pouco da história dos militares portugueses na guerra contra os movimentos nacionalistas de Angola". Trata-se de uma autobiografia do autor, de "uma história impregnada de recordações e emoções", desde que deixou a sua aldeia natal, em 1964, para fazer a recruta militar no Quartel de Mafra, daí saindo um ano depois para a missão militar de quatro anos em Angola.

Na sua opinião, o objectivo das autoridades portuguesas de então era a concretização do "sonho do império colonial português", o que veio a desmoronar-se em 25 de Abril de 1974 com o golpe militar que derrubou a ditadura. O escritor, que já havia publicado em 2011 "A Última Estação do Império", é licenciado e mestre em Economia Europeia, docente universitário, consultor de empresas e empresário.

COISAS OBSCURAS
Por sua vez, o escritor angolano Albino Carlos colocou nas bancas, em Maio, o livro "Isunje", título em língua kimbundo que se traduz em "coisas obscuras". E entre as coisas obscuras encontra-se o feitiço ­ um dos temas que faz parte do conjunto de contos e histórias do dia-a-dia dos angolanos. Albino Carlos admite que o livro reflecte o seu gosto pelo contar de histórias, onde também não falta a componente do conflito armado.

O assunto é referido pelo escritor José Luís Mendonça, ao apresentar a obra: "o tema escorre por um país (Angola) e uma época (o conflito pós-independência) e as suas bifurcações ou emanações calamitosas. Um autêntico livro aberto que revela a história da desgraça inscrita nos destroços e traços da guerra.

São temas candentes da sociedade angolana e comuns a outras sociedades africanas: feitiçaria; culto dos mortos; guerra fratricida; vulnerabilidade e insegurança da mulher; fome; incivilidade". Albino Carlos, jornalista há 30 anos, é actualmente o Director Nacional de Publicidade e Marketing do Ministério da Comunicação Social. O seu livro "Olhar de Lua Cheia" ganhou o Prémio de Literatura António Jacinto, em 2006.

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