Nublado

Terça | 20 Agosto

31C

32

25

Descubra o País < voltar

"Partem os Artista, Ficam as Obras"

13/09/2014 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Setembro/Outubro 2014)

O cenário cultural angolano perdeu, entre os passados meses de Maio e Junho, cinco figuras de grande relevo. Causaram grande comoção nacional e internacional o desaparecimento físico do antropólogo e investigador Samuel Aço, dos músicos José Oliveira de Fontes Pereira, Fulas de Carvalho e António Domingos de Oliveira e do promotor cultural Manuel Faria.

ANTROPÓLOGO SAMUEL AÇO

O antropólogo e investigador Samuel Aço morreu de doença, aos 69 anos, deixando como legado uma obra a nível do "processo de resgate, valorização, promoção e desenvolvimento da Cultura Nacional, particularmente no domínio do Património Cultural Imaterial", como reconheceu o Ministério da Cultura.

Samuel Aço exerceu várias funções de direção no Ministério da Cultura, além de ter sido docente da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, fundador do Centro de Estudos do Deserto e, até à data da sua morte, era Presidente do Júri do Prémio Nacional de Cultura e Artes 2014. Natural de Caluquembe, província da Huíla, onde nasceu a 26 de Junho de 1945, viveu a sua infância no Namibe até aos 12 anos, altura em que se mudou para Luanda.

Iniciou-se em Psicologia em Lisboa, mas depois mudou para Antropologia, concluindo a licenciatura em 1983. Foi o principal impulsionador do Centro de Estudos do Deserto, criado em 2007 para desvendar e divulgar os segredos do deserto do Namibe.
Conta com colaborações e artigos escritos em várias publicações nacionais e internacionais, entre as quais a Revista Austral.

JOSÉ OLIVEIRA DE FONTES PEREIRA

José Oliveira de Fontes Pereira (1939-2014), compositor, guitarrista, bailarino, artífice, coreógrafo e figura emblemática do histórico Grupo Teatral Ngongo, foi fundador da primeira Escola de Semba, em 1958, e pertenceu a movimentos culturais defensores da angolanidade durante o colonialismo português.

Notabilizou-se como exímio tocador de dikanza, instrumento tradicional que se juntava à concertina, viola, kibabelo e batuque. Malé Malamba, como era conhecido pelos mais próximos, tinha apenas cinco anos de idade quando herdou, de um inseparável amigo do seu pai, a afeição intuitiva pelos instrumentos musicais angolanos.

Descendia de uma importante dinastia de músicos, homens de cultura e autores de clássicos da Música Popular Angolana. O seu irmão, Euclides de Fontes Pereira, autor da canção "Nzagi", também foi compositor, cantor e executante de dikanza no histórico conjunto musical "Ngola Ritmos".
A 8 de Novembro de 2010 foi agraciado com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, pelo contributo prestado à música angolana.

FULAS DE CARVALHO

Fulas de Carvalho, pseudónimo de Bartolomeu Sebastião de Carvalho, ingressou no meio artístico no decorrer dos anos 70, tal como outros jovens que encontraram na música uma expressão de protesto contra o regime colonial vigente na época em Angola.

No agrupamento musical "Os Angolenses", notabilizou-se como vocalista e, mais tarde, no conjunto "Os Jovens do Prenda". Por ocasião da sua morte, uma nota assinada pela ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, salienta que "partiu o artista, mas ficam na nossa memória colectiva os feitos deixados por esta figura".

A nota realça particularmente o facto de a voz de Fulas de Carvalho ter ficado registada nas várias canções do disco "Kudikola Kuetu", do conjunto "Os Jovens do Prenda". Nasceu a 14 de Maio de 1958 no Dande, província do Bengo, tendo falecido no dia 29 de Maio deste ano.

MANUEL FARIA

Manuel Faria, que faleceu a 30 de Maio, destacou-se como promotor cultural nas décadas de 70 e 80, numa altura em que era proprietário dos centros recreativos Kudissanga Kua Makamba e Kianda Kya Anazanga, nos quais se notabilizaram grandes estrelas da música angolana, tais como Elias dyá Kimuezo, Bonga, Teta Lando, Artur Nunes, David Zé, Urbano de Castro, Luís Visconde e tantos outros.

Manuel Faria constituiu uma pedra fundamental na divulgação da música de intervenção política, em prol do sentimento nacionalista de defesa dos ideais da independência, facto que o levava a estar sob vigilância da Polícia política portuguesa, a PIDE/DGS, tendo sido várias vezes encarcerado.

ANTÓNIO DOMINGOS DE OLIVEIRA

Também vítima de doença morreu o percussionista António Domingos de Oliveira, que fundou em 1958 o grupo "Vagabundos do Ritmo", onde pontificavam também Artur da Cunha, José Miranda e Bibiano.

A sua carreira atingiu o auge a partir de 1980, ano em que passou a percussionista do agrupamento "Kituxi e Seus Acompanhantes". Por ocasião da sua morte, mais uma vez o Ministério da Cultura, através da ministra Rosa Cruz e Silva, elevou as virtudes e o papel do percussionista angolano.

Em nota de condolências, Rosa Cruz e Silva realça a intervenção do artista na preservação e divulgação da rítmica angolana através dos instrumentos tradicionais. "Queremos que a nova geração dê prosseguimento às linhas mestras desta figura, que ontem soube beber dos seus ancestrais, pesquisando o que de tão rico existe do folclore angolano", diz a ministra.

Comentários