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Viagem Luanda-Malanje em Comboio Expresso

03/09/2011 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Setembro/outubro 2011)

Fotos: Carlos Lousada

A viagem é por terra, via férrea, e começa na estação de Viana, a vila vizinha de Luanda, onde os passageiros aguardam bem cedo pelo Comboio Expresso com destino a Malanje, a mais de 400 quilómetros de distância, numa viagem que se prolonga por cerca de nove horas.

Os raios solares fazem a sua aparição no horizonte e já os passageiros esperam pelo sinal de entrada para o Comboio Expresso de longo curso para Malanje, que parte por volta das 7h15m e chega ao destino às 16h15m. Quando os altifalantes anunciam a iminente partida, a maior movimentação é em direcção à cauda da composição, onde as cargas dos passageiros são ordeiramente acomodadas. Posto isto, é a entrada para as carruagens.

À Austral estava reservada uma carruagem de primeira classe– amplo espaço climatizado com cadeiras reclináveis, apropriadas para vencer a distância. Nesta classe, um pequeno- almoço começa a ser servido logo ao suave deslizar da partida, enquanto o comboio vai acelerando a marcha em direcção à primeira estação de paragem, porque o Expresso não pára em todas elas que se postam ao longo do percurso.

No exterior, a paisagem corre ao olhos dos passageiros, o verde de extensas plantações agrícolas, uma imensidão de embondeiros e outras árvores a perder de vista. Ao longo do desfilar da via-férrea, vão sendo vistos atarefados camponeses transportando os seus utensílios agrícolas.

O serpentear da marcha, ora lenta ora acelerada, sugere um passeio de visita às outras composições, com lotação acentuada em segunda classe, onde os passageiros já abriram os seus farnéis e se alimentam das rápidas refeições trazidas de casa e embaladas em pequenos recipientes. Todos estão animados, entretidos em amena cavaqueira, possuídos pela sensação de segurança que os outros meios de transporte não transmitem.

A enorme máquina penetra na província do Bengo e passa rapidamente pelas povoações de Baia, Catete e Barraca, sob os olhares curiosos dos habitantes. As curvas na área de Zenza do Itombe obrigam o comboio a uma marcha lenta, que os passageiros de olhar fixo nas janelas agradecem, pelas imagens da luxuriante vegetação e o esvoaçar de bandos de aves.

Seguem-se as povoações de Cassualala, famosa pelas suas suculentas laranjas, e o comboio chega a território da província do Kwanza-Norte, cruzando pelas vilas do Dondo, Dalahui, Luinha, Canhoca e fazendo a sua primeira paragem em Ndalatando, capital provincial. A estação ostenta os traços da sua recente reabilitação – sala de espera em amplo e asseado espaço, confortáveis cadeiras e paredes impecavelmente decoradas com pinturas de artistas plásticos nacionais.

A paragem é demorada, permitindo a descida e a subida de novos passageiros, por entre a azáfama de recolha e deposição de bagagens. Entre os que desceram encontrava-se dona Amélia, nascida no Kwanza-Norte mas a residir em Luanda. Visivelmente satisfeita, explicava que regressa à terra sempre
que pode em visita familiar, preferindo viajar por via-férrea por achar mais segura e calma do que pelas estradas.

A próxima estação será Lucala, a segunda das quatro em que o Comboio Expresso faz paragem, ao contrário do Comboio Inter-estações, que deixa e recebe passageiros em todos os pontos. Este município do Kwanza-Norte tem uma estação bastante movimentada, com dezenas de vendedoras de produtos do campo prontos a digerir, como mandioca, batata doce, amendoim, milho, que constituem óptimos aperitivos para os passageiros que entram e que saem, mas também para os que prosseguem viagem rumo a Malanje.

E é já na província de Malanje que o comboio fará a próxima paragem – em Cacuso – depois de atravessar a ponte de ferro sobre o rio Lucala, que dá nome ao município com o mesmo nome e desagua noutro rio, o grande Kwanza, que proporciona o espectáculo das maiores quedas de água de Angola, as de Calandula (antigas quedas de Duque de Bragança). Já muito perto da capital da província de Malanje, Cacuso apresenta também grande movimentação de passageiros, sempre com a oportuna presença de vendedoras de produtos agrícolas e frutos locais.

A viagem está a chegar ao fim. Após passagem pelas comunas de Zanga e Matete, a máquina faz a última paragem na gare do Lombe, onde se conforma o desvio de estrada para Calandula. Grande movimentação na descida de passageiros, entre os quais chama a atenção uma família de oito pessoas, que vai em visita familiar e também espreitar as famosas quedas de água de Calandula. O pai explica que foi a filha mais nova, de oito anos, quem muito pediu para visitar as quedas de água, pelo facto de apenas as ter visto nos livros escolares e nos ecrãs da televisão.

A cidade de Malanje perfila-se no horizonte – o destino. O Comboio Expresso chega finalmente à estação de Malanje –um amplo edifício modernizado e decorado com pinturas nas paredes, com todo o conforto que uma estação merece. Os passageiros descem por entre azáfama indescritível, com parentes e amigos pelo meio, que os aguardam com uma imensidão de troca de beijos e abraços.

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