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Pertinência do Estudo de Epopeias em Angola

Angola, uma janela aberta ao mundo

07/03/2014 | Fonte: © Austral, Revista de Bordo da TAAG (Março/Abril 2014)

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Angola, uma janela aberta ao mundo

No cruzamento de povos, línguas, sabores e saberes, Angola sobressai com a peculiaridade da sua situação em África. E com um coração aberto para todas as ideias, mormente na área cultural. Assim, perante a admiração de alguns, foi organizado pela primeira vez em Angola um Simpósio de Estudos Clássicos, pela mão do Instituto Superior Politécnico Sol Nascente - ISPSN, no Huambo, prestigiado por brilhantes prelectores nacionais e estrangeiros. Destacou-se a presença do eminente Professor Doutor José Pedro Serra, do Departamento de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que na comunicação "O Caminho dos Clássicos" foi muito esclarecedor sobre a importância dos Estudos Clássicos em Angola e em África. Vinda de Espanha, a Professora Doutora Rocío Orsi debruçou-se sobre "Variaciones sobre el tema del heroismo. De la valentía épica a la valentia trágica". A adesão massiva de docentes da instituição e de estudantes ávidos de saber confirmou a pertinência e premência do evento.

Sobre a realização do Simpósio

Desde a sua criação, o ISPSN pauta-se por um horizonte de educação diferencial. Pretendendo introduzir no contexto nacional uma iniciação e divulgação da Cultura Clássica e dos Estudos Clássicos, vem com este evento lançar um desafio no sentido da sua implementação. Para o ISPSN, conforme o seu manifesto a propósito, "pensar a Cultura Clássica é pensar uma boa parte do pensamento crítico actual; é pensar a arte, a ciência, as várias ciências; a literatura, a política, a história, o direito, a religião, a educação e as teologias". Mas, prossegue, "esta afirmação, sem pecar, não põe em causa, nem pretende minimizar os incontáveis contributos dos egípcios, dos fenícios, dos babilónios, dos chineses ou dos indianos".

Estudos Clássicos e África

Se os Estudos Clássicos são importantes, têm todavia de ser encarados numa perspectiva comparatista, em que são analisados também todos os contributos prévios para a maturação da civilização clássica, com especial realce para a contribuição do Egipto Antigo. Segundo o egiptólogo senegalês Cheikh Anta Diop, os seus habitantes "appartenaient à une race africaine, entendez nègre". Ademais, estudar as outras culturas possibilita uma melhor compreensão da nossa própria cultura que, actualmente, contém características românicas e bantu.

Estudar a cultura helénica permite-nos imergir na sua mundividência: política e retórica, com relevo para o papel da "polis"; épica, que continua no modelo trágico; filosófica, com inquietação pedagógica, associada ao equilíbrio e magnanimidade, bem evidentes no episódio do poema épico Ilíada relacionado com a morte de Ajax. Os Romanos legaram-nos o seu Direito.

No contexto angolano actual, torna-se relevante o estudo dos poemas épicos Ilíada e Odisseia, atribuídos a Homero, fixados por escrito cerca de 600 anos antes de Cristo e que já existiam há séculos na tradição oral. Estes, juntamente com a Eneida de Virgílio e de outras Epopeias medievais, modernas e contemporâneas, podem ajudar-nos a melhor identificar e potenciar as Epopeias da cultura ancestral angolana, já que este género está presente na cultura de todos os povos.

Epopeia de Gilgamesh

A Epopeia de Gilgamesh, ou Épico de Gilgamesh, é considerada por muitos como a obra literária mais antiga conhecida. É um antigo poema épico da região da Suméria, que se estendia do centro ao sul da Mesopotâmia (actual Iraque). Os sumérios são conhecidos como detentores de uma das civilizações mais avançadas da Antiguidade. Destacaram-se nos campos da matemática, engenharia, irrigação, agricultura, astronomia, medicina e na escrita. O alfabeto mais antigo conhecido pelo homem tem origem suméria: a escrita cuneiforme. Calcula-se que esta escrita tenha sido inventada por volta de 4000 a.C. A Epopeia de Gilgamesh, preservada em placas de argila, com caracteres cuneiformes, foi encontrada em ruínas da Mesopotâmia, por volta de 1890, altura em que foi decifrada. Acredita-se que na sua origem estejam diversas lendas e poemas sumérios sobre o mitológico deus-herói Gilgamesh, reunidos e compilados no século VII a.C. pelo rei Assurbanípal. Esta Epopeia contém a mais antiga referência conhecida ao dilúvio, antecedendo à versão bíblica em alguns séculos.

Epopeia e História

Por se tratar de obras literárias, com uma forte componente mitológica, as Epopeias não podem ser utilizadas como fontes históricas. Todavia, podem ajudar a historiografia, porque possibilitam não somente a compreensão de alguns costumes dos povos da época, mas também a sua visão do mundo, alguns aspectos da religião e de ordem política e social. Isto é, permitem efectuar uma análise da sociedade da sua época. Esses poemas têm a função social de reunir o saber, os padrões de comportamento, as informações que interessam à vida em todos os sentidos.

Definição de Epopeia

Mas o que é uma Epopeia? O termo é de origem grega (do grego  / epopoiía, de  / epos "história ou palavras de uma canção" e  / poieo "para criar", literalmente, "a acção de fazer uma história "). É um longo poema onde são lembradas aventuras, feitos grandiosos de heróis, que louvam a glória de um povo, de forma hiperbólica. São narrativas da tradição oral, que transportam a memória de um povo e transmitidas por griots, xamãs, contadores de histórias, poetas ou trovadores, de forma falada ou cantada num tom monótono. A partir de 1968, a descoberta da Epopeia como género mundial evidencia-se com os estudos de G. Dumézil, que se debruçam sobre a Índia com o Mahabharata, as sagas nórdicas, passando pela epopeia grega, latina, germânica e uma série de epopeias africanas, etc. Desde então, tem-se assistido a tentativas de sínteses, redefinições e reclassificações, que têm em conta esta globalização do género.

As Epopeias Africanas

Segundo Kesteloot e Dieng (2009), a África contemporânea ainda tem duas grandes áreas onde o género épico é particularmente forte: a África Ocidental, Central e Oriental, com extensão na África do Sul. Estas duas grandes áreas oferecem uma variedade incomparável de poemas épicos reais, religiosos ou mitológicos, que são fixados por escrito. Há uma constante que se verifica em algumas tradições da África ocidental sudanesa: o mito de origem de impérios através da figura de um herói fundador. Um dos mais representativos do género épico em África é a gesta de Sundiata Keita, uma personagem apresentada como real, que fundou no século XIII o Império do Mali. Essas histórias são transmitidas na África Ocidental pelos griots, considerados como guardiães das tradições do seu povo. Os etnólogos que investigaram as sociedades africanas, durante a primeira metade do século XX, manifestavam pouco interesse pelo "folclore", privilegiando os factos sociais e religiosos, quer dizer os mitos cosmogónicos. Djibril Tamsir Niane, um historiador africano, atraiu as atenções em 1960 com a publicação de Soundiata Épopée Mandingue, pela editora Présence Africaine, que relata a história do Mali de forma épica. Gravou a entrevista com um griot e, mais tarde, tentou fazer uma adaptação respeitando a "maneira de dizer" do griot, com os diálogos, refrãos e pormenores, em vez de simplesmente resumir os factos, como acontecia com os seus predecessores. O resultado pareceu-lhe evidente: tratava-se de uma Epopeia. Os críticos e linguistas seguiram o seu exemplo e têm estado a recolher textos épicos em numerosas línguas africanas, até aos dias de hoje.

Classificação das Epopeias Africanas

Continuando com Kesteloot e Dieng (2009), as Epopeias foram divididas em quatro categorias, consoante os seus conteúdos: narração de grande envergadura, história ritmada, feitos de guerra ou outros conflitos, actos de bravura, exaltação do heroísmo ou da honra, relacionados com a definição mundial de Epopeia. Pode-se acrescentar, no que diz respeito às epopeias reais ou feudais, uma função de identidade nacional, importante na medida em que os antigos reinos, ou mesmo os reagrupamentos étnicos, estão presentes nestas histórias que reforçam a consciência da sua história e dos seus valores colectivos. Em todos os casos, as epopeias são conhecidas e repetidas por um público popular. São declamadas, palmodiadas ou cantadas por especialistas da memória que, muitas vezes, também são músicos. Na África Ocidental e Oriental, a casta dos griots é constituída por profissionais ligados aos príncipes dos antigos reinos e encarregues de perpetuar as suas grandes acções, a sua genealogia, as suas alianças etc., num papel de cronistas análogos aos da Idade Média na Europa. Nas sociedades clássicas do Golfo da Guiné e da África Central, as Epopeias foram apoiadas por músicos-contadores de histórias que adquiriram o seu conhecimento e património literário através de um mestre. Não estão ligados ao poder nem à história e gozam de uma maior capacidade de invenção, isto é, de crítica. Todavia, verifica-se que as Epopeias não existem em qualquer tipo de sociedade ­ se não houver um especialista, o que parece verificar-se também na Europa.

Epopeias Africanas famosas

As Epopeias mais célebres da África Ocidental continuam em actividade e conservam a sua função identitária e eufórica no estado actual. Referenciou-se Sundiata Keita, do Mali, mas canta-se também a gesta de Ségou y Silamaka, de Macina (fula), e a de Hambodedio (fula). Na Guiné, exalta-se a Epopeia de Samory Touré (malinke) e as de Almamy de Fouta Djalon (fula). No Senegal, reiteram-se as Epopeias wolof de Kajoor et de Walo, assim como a de Amadou Bamba. Na Gâmbia, cantase a Epopeia de Gabou. Na Mauritânia e no Senegal, a Epopeia de Samba Gueladio Diègui também é um clássico. No Burkina Faso, a pesquisa começa somente com a Epopeia Mossi. No Niger, a recolha está mais avançada com as Epopeias Zarma de Issa Korombe, et de Zabarkane, sem contar com a de Askia Mohammed (songhai) e as Epopeias fulas de H. Bododji Paate e a de Garba Mama. Na Nigéria, as Epopeias Haussa são pouco difundidas fora do país, mas o Mvett dos Camarões e Gabão é famoso. Na África Central, as Epopeias Lianja dos Mongo e Mwindo dos Nyanga rivalizam com as Epopeias do Rwanda et do Ouganda. Na África Oriental, as Epopeias swahili circulam entre a Tanzania e o Quénia, enquanto na África do Sul Shaka Zulu se tornou o símbolo da luta anticolonialista. Foram citadas as mais conhecidas, mas o continente-berço contém muitas mais, umas não publicadas, outras ainda não transcritas. África, sobretudo o território a Sul do Sahara, continua sem dúvida como o principal depositário contemporâneo de Epopeias Vivas. Significa que são praticadas num contexto tradicional oral, pouco ou não afectado pelas transformações inevitáveis e alterações que a transição para a escrita impõe. Muitas línguas africanas têm, assim, um termo para designar as suas Epopeias Orais, também utilizado pelos especialistas modernos que as colectam, transcrevem e comentam (idem, 2009).

Epopeia em Angola

Ainda não há estudos sistematizados sobre as Epopeias em Angola, nem se conhecem poemas épicos relevantes. Não obstante, acreditamos que Angola tem um grande potencial épico. A valorização de figuras históricas ancestrais pode despertar esta competência, que já se manifesta com as produções à volta da soberana Njinga a Mbande. Mais uma razão para corroborar com a pertinência dos estudos clássicos e de epopeias.

Referências Bibliográficas

DUMÉZIL, Georges 1995 Mythe et épopée. 3 vol., Gallimard, Paris KESTELOOT, L. e DIENG, B. 2009 Les Epopées d'Afrique noire, Éditions Karthala et UNESCO, Paris M'BOKOLO, Elikia 2012 África Negra, 2ª Edição, Tomo I, 2ª Edição, edições Colibri, Lisboa NIANE, Djibril T. 1960 Soundiata épopée mandingue, Présence Africaine, Paris ZUMTHOR, Paul 1983 Introduction à la poésie orale, Seuil, Paris.
 

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