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Artes plásticas angolanas

Compêndio de múltiplos cânones estéticos

04/07/2014 | Fonte: Rotas & Sabores

São muitas as linhas, os traços e as cores que se cruzam, sobrepõem e preenchem a tela das artes plásticas angolanas. É impossível, em duas pinceladas, fazer-lhes o retrato, nem tão-pouco é possível entornar a tinta toda numa tela e esperar que se revelem contornos realistas e concretos capazes de dar lhes dar a devida forma, abrangência, particularidade e complexidade. Sabemos que elas vivem, que nos acompanham, e que muitos dos seus traços e cores já percorrem mundo, levando o nome de Angola além-fronteiras, mas agarrá-las nestas páginas seria uma ilusão.

Certo e seguro é que as artes plásticas angolanas estão em crescimento e aperfeiçoamento, e tudo indica que não deixarão de prosperar na jornada de conquista de novos espaços – aqui e em vários pontos do mundo, espalhando a sua identidade única e as suas raízes, mas igualmente o seu carácter de múltiplas influências, viagens e misturas.

Fernando Alvim, artista plástico multifacetado e um dos principais responsáveis pela divulgação da arte contemporânea africana e angolana, cá dentro e lá fora, numa entrevista à revista Economia & Mercado, em 2010, considerou que o mercado das artes em Angola ainda é embrionário, estando bastante aquém da dimensão alcançada por países africanos vizinhos, como é o caso da África do Sul. Ainda assim, o artista apontou que as artes plásticas angolanas sempre tiveram uma identidade própria e estão marcadas por criações de grande qualidade.

Volvidos quatro anos, o caminho prossegue e alguns artistas nacionais vão ganhando um crescente reconhecimento e valor, tanto a nível nacional quanto internacional. Entre os artistas que marcam a visibilidade e projecção das artes plásticas angolanas além-fronteiras destaca-se o já cidadão do mundo António Ole, o qual escapa às definições rígidas e aos lugares-comuns, tal como muitos artistas africanos.

Esta condição de “reconhecimento internacional” vale, por exemplo, a presença em eventos como as Bienais de São Paulo, Joanesburgo e Veneza, ou ainda estar incluído em Exposições do MoMA (Museu de Arte Moderna) de Nova Iorque. No Festival Internacional de Cinema de Luanda, em 2013, foi exibido o documentário “Olé António Ole”, realizado pelo português Rui Simões e focado na vida e obra deste artista plástico.

A par de António Ole, em Angola, entre o melhor e mais polémico da arte contemporânea, destacam-se os trabalhos de Miguel Petchosky, Franck Lundangi, Yonamine Miguel, Helga Gamboa, Van, Chikukuango Cuxima Zwa, Osvaldo da Fonseca, Álvaro Macieira, Nelson Costa, Kiluange Kia Henda, Nástio Mosquito, Marco Kabenda, Paulo Jazz, os quais, nas artes visuais e plásticas, estão na vanguarda de algumas das mais interessantes propostas estéticas e experimentações do momento.

Não menos importantes são as obras de Victor Teixeira (Viteix), Neves e Sousa, Paulo Kapela, Mendes Ribeiro, Augusto Ferreira, Tomás Vista, Valentim Caterça, Fernando Alvim, Augusto Ferreira, Jorge Gumbe, Frederico Ningi, Eleutério Sanches, Massongui Afonso, Gonga, Sabby, Kidá, Telmo Vaz Pereira, Kissanga, Domingos Barcas, Henrique Abranches, Costa Andrade, Edgardo Xavier e Zan, todos eles unidos pela angolanidade da sua arte, sendo este um conceito que reflecte uma identidade cultural única, resultante de outras heranças, em razão da diáspora que uma parte dos artistas viveu.

Também digno de destaque, o fotógrafo angolano Edson Chagas, artista da denominada nova geração, venceu em 2013 o Leão de Ouro pela representação de Angola na conceituada exposição de arte, a Bienal de Veneza. Chagas é o primeiro africano, e também o primeiro artista de língua portuguesa, a vencer o prémio de melhor representação nacional na célebre e idónea mostra italiana.

Traços identitários

O que domina o pensamento estético, hoje em dia, nas várias gerações de artistas plásticos e visuais angolanos, e não só, é a obra de arte aberta. A grande inquietação estética será a procura de uma globalidade, de uma certa totalidade, da provocação, do paradoxal, em detrimento da valorização do processo e do conceito, do predomínio da experiência estética sobre a actividade artística.

Nesta viagem pelas cores das artes de Angola, a Rotas & Sabores conversou com o destacado artista plástico e curador angolano da denominada nova geração, Benjamim Sabby, que vive e trabalha em Luanda, membro da União Nacional de Artistas Plásticos (UNAP) de Angola.

Também quadro da Direcção Nacional de Formação Artística e professor de Educação Visual, o artista, questionado sobre a existência da arte africana, considerou ser esta uma pergunta de difícil resposta, “pois até a arte dita tradicional africana, que alguns dizem não ter influências do exterior, sabemos hoje, teve contactos com outras expressões artísticas”. Por isso, actualmente, acrescenta Sabby, a arte africana pode ser caracterizada de várias formas, nomeadamente a arte mais tradicional – como as pinturas murais dos Cokwé ou os Bakamas de Cabinda, por exemplo, e a arte onde as novas tecnologias da informação e da comunicação se tornam num suporte indispensável e recorrente para a criação e produção artísticas.

As artes plásticas angolanas, e africanas em geral, são um compêndio de múltiplos cânones estéticos, pré-coloniais, coloniais e pós-coloniais.

Para o historiador e crítico de arte Adriano Mixinge, “é na dinâmica entre esses diferentes tipos de cânones, nas suas condições de preservação, nos questionamentos a que foram e são constantemente submetidos, bem como nas estratégias de implosão e redefinição de uns e outros, que se situam, ou podem surgir então, alguns dos elementos configuradores do particularismo transcendental de uma nova estética”.

Sobre este assunto, e ainda na entrevista que concedeu à Economia & Mercado, Fernando Alvim considerou que não existe uma definição muito específica sobre a arte contemporânea angolana, mas opinou que o primeiro traço identitário assenta no facto de ser feita por angolanos, “porque os artistas têm uma identidade e isso também dá à arte a sua pátria”.

A fonte foi mais longe, apontando que se reconhece a angolanidade das obras de arte contemporâneas angolanas em função da matriz estética dos artistas, os quais trabalham a partir do contexto e da realidade angolanos.

No entanto, a arte moderna e contemporânea está sujeita a uma série de parâmetros de referência, da qual o mercado angolano de obras de arte não pode deixar de fazer parte. Porém, é o trabalho dos artistas, o seu empenho, as suas criações, as exposições individuais ou colectivas ao nível nacional e, nalguns casos, além-fronteiras, que conseguem contrariar justamente a tendência geral de estagnação, uma vez que se propõem reflectir individual e colectivamente sobre a arte angolana do momento, na sua relação com a arte internacional, concretamente com os novos conceitos da produção artística.

Crítica especializada e coleccionadores

O efeito da crítica especializada e dos coleccionadores de arte, particulares ou institucionais, é também parte importante na tarefa de aperfeiçoamento das artes plásticas e visuais angolanas. Relativamente à crítica, é nesta área que se deve dar atenção ao trabalho do angolano Adriano Mixinge, mem¬bro da As¬so¬cia¬ção In¬ter¬na¬ci¬o¬nal dos Crí¬ti¬cos de Ar¬te (Ai¬ca) que tem dado uma contribuição significativa para a história e a crítica da arte moderna e contemporânea que se vem fazendo em Angola, mostrando como ela se insere, o seu empenho e preocupações dos criadores, no contexto da geopolítica da arte contemporânea africana e internacional.

A outro nível, mas não menos relevante, nomeadamente da colecção, está a Fundação Sindika Dokolo, que detém em Angola a mais expressiva colecção de arte moderna e contemporânea africana, actualmente com cerca de três mil obras e que tem realizado as Trienais de Luanda, de destacada importância, visando a promoção da cultura e da arte nacional. Sindika Dokolo está envolvido ainda num projecto com o Governo para a criação de um centro de arte contemporânea em Luanda.

Outras colecções particulares a salientar são as de Nuno Pimentel e António Nascimento, assim como a de empresas como, por exemplo, Sonangol, Angola Telecom, TAAG, e alguns bancos comerciais, para além da seguradora ENSA.

Esta última, como incentivo às artes plásticas angolanas, instituiu em 1991 o Prémio bianual ENSA-Arte, de âmbito nacional, dirigido aos criadores de pintura e escultura. A ENSA tem uma abundante colecção, e um dos maiores acervos disponíveis de obras de arte angolana. E se gosta de artes plásticas, pode assentar já na sua agenda a realização, em Abril, da XII Edição do Prémio ENSA-Arte, no Museu Nacional de História Natural, em Luanda.

Aliás, Luanda ocupa o epicentro das presentes manifestações da dinâmica das artes visuais e plásticas angolanas. A formação superior artística está ainda em projecto governamental. Relativamente a espaços para exposições, a paisagem é escassa, sobretudo ao nível de museus e centros culturais. Quanto ao que ocorre no interior do país, sabe-se muito pouco. Há ainda os artistas das diferentes diásporas angolanas que produzem em outros contextos.

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