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Corredor do Kwanza, Cuito Cuanavale e Tchitundu Hulu na rota para Património Mundial

22/01/2018 | Fonte: ANGOP e Venceslau Mateus

Depois da inclusão do Centro Histórico de Mbanza Kongo na lista do Património Mundial da UNESCO, o Executivo angolano, através do Ministério da Cultura, tem as baterias apontadas para os processos de candidatura do Corredor do Kwanza, das Pinturas Rupestres de Tchitundu Hulu e do Memorial da Batalha do Cuito Cuanavale.

Impulsionadas com o ganho obtido a 8 de Julho de 2017, em Cracóvia (Polónia), devido à elevação de Mbanza Kongo, no âmbito do processo de divulgação, preservação e internacionalização dos sítios, monumentos e figuras históricas nacionais, as autoridades angolanas carregam baterias para uma “longa e árdua batalha” que poderá culminar com a inclusão dos três bens materiais e culturais na lista do Património Mundial, para o orgulho de uma nação rica em património e história cultural.


Com valências e valores universalmente aceites para a entrada na lista, os três sítios nacionais reúnem condições, pois são espaços que estiveram e estão ligados à história de Angola, para ganhar o estatuto de bens patrimonial-culturais a nível mundial, como reconhecimento da sua dimensão simbólica, artística e cultural, que é, por sinal, uma riqueza acumulada por gerações passadas, que deve ser valorizada e transmitida às futuras/vindouras gerações.


Apostados em ver, mais uma vez, um sonho concretizado, as autoridades, através de especialistas, têm-se desdobrado em acções de divulgação e sensibilização dentro e fora de portas, mostrando a importância dos bens culturais em causa no mosaico cultural angolano.


Corredor do Kwanza
Detentor de um vasto conjunto de riquezas patrimoniais que definem o seu valor universal excepcional, o Corredor do Kwanza é tido por peritos como um bem misto, devido às suas características naturais e culturais.


Do ponto de vista natural, o Corredor inclui uma vasta vegetação ao longo do rio Kwanza, bem como uma rica biodiversidade.


Já na vertente cultural, abarca um conjunto de bens como fortalezas, igrejas seculares, entre outras infra-estruturas, incluindo a cidade histórica do Dondo.
Estas particularidades tornam o Corredor do Kwanza num bem a ser preservado, valorizado e desfrutado, não só pela sociedade angolana, mas também pelos visitantes, gerando recursos para o desenvolvimento socioeconómico e cultural do país.


O Corredor do Kwanza foi e é considerado uma zona de activo comércio, praticado no princípio pelos Mbumbos (batedores ou vendedores) do Reino do Ndongo, e que possuía níveis satisfatórios de recursos, entre fontes de minerais como o ferro, agricultura, pastorícia e uma pequena indústria que movimentava homens e mercadoria, que fomentaram uma complexa rede de comércio.


Hoje, curiosamente, o peso desta dimensão económica ainda é notório na prática da actividade piscatória e noutras de carácter agro-pecuário. O rio Kwanza dispõe de várias características naturais que facilitam a fixação, nas suas margens, de aglomerados populacionais.


Os Mbundu que aí se foram desenvolvendo ao longo dos tempos ficaram ligados a uma intensa actividade mercantil, através da implementação de feiras ou mercados frequentados por populações de outras regiões do país.


O espaço que se enquadra nos limites geográficos do Reino do Ndongo, cuja capital é Kabasa e soberano Ngola Kiluanji, tinha excelentes pontos de vigilância e era naturalmente defendido por um conjunto de morros.


Consta ainda que, desse quadro natural de protecção, já nos séculos XVI e XVII, os portugueses desenvolveram um sistema militar de defesa, tornando o rio Kwanza no principal eixo de penetração para o interior de Angola, ávidos por alcançar as feiras e as lendárias minas de prata que supostamente existiriam na região, sobretudo em Kambambe.


O potencial defensivo do Corredor do Kwanza, correspondente ao período da ocupação, foi fixado em Massangano em 1583, no ponto estratégico da confluência dos rios Kwanza e Kukala, na Muxima, em 1599/1606, e em Kambambe, em 1604, no limite navegável do Kwanza.


A fixação nestes pontos estratégicos deu saliente impulso à fixação da população colonial no interior, e consistiram pontos de escala obrigatória para as embarcações que demandavam a captura de escravos.


Tchitundu Hulu
Tchitundu Hulu (também grafado Tchitundulo) é um morro granítico situado no município de Virei, 137 quilómetros a Leste da cidade de Moçâmedes, capital da província do Namibe. O local é conhecido pelas gravuras/pinturas rupestres do Morro Sagrado dos Mucuísses, um dos mais belos conjuntos rupestres da pré-história existentes em Angola, onde abundam representações de animais e desenhos esquematizados.


A estação arqueológica do Tchitundulo tem uma idade de mais de quatro mil anos e é o ponto de partida das artes rupestres de África, que iniciaram na província do Namibe.


Apesar da relevância do local, as gravuras correm o risco de desaparecer, devido ao empolamento, por acções térmicas, da camada superficial da rocha que depois se fragmenta.


As principais pinturas encontram-se no grande morro granítico que dá acesso à chamada Casa Maior, que se abre sobre a falésia em forma de anfiteatro.
As gravuras/pinturas são datadas do paleolítico e neolítico e atribuídas a povos que habitavam o local, antes da chegada dos bantus.


A importância histórica, cultural e científica das pinturas e gravuras rupestres de Tchitundu Hulu é reconhecida desde os anos 50 do século passado.


Com o fundamento de que a Estação de Arte Rupestre de Tchitundu Hulu representa um testemunho material e imaterial da vida social, económica e espiritual das antigas comunidades que se terão fixado naquele espaço e autores das pinturas e das gravuras, entendeu o Ministério da Cultura atribuir-lhe classificação como Património Histórico-Cultural (Despacho Ministerial n.º 116, publicado no Diário da República nº 38, de 6 de Setembro de 1996).
Sítio de sacralidade, Tchitundu Hulu foi, no passado e continua a ser hoje, um local sagrado e reverenciado pela comunidade local.


O sítio é permanentemente lembrado como centro dos rituais das comunidades que habitam o espaço circundante, nomeadamente, os caçadores e recolectores, actualmente designados Kwisi.


Consideradas na sua essência, essas tradições históricas associadas às evidências arqueológicas constituem elementos significativos para a compreensão da sua importância e carga simbólica do sítio, tanto para as antigas populações como para as actuais.


A estação conserva ainda uma das maiores concentrações de arte rupestre que se conhece: contam-se mais de 2000 gravuras e 250 pinturas. Ela distingue-se das demais, justamente por ser um dos únicos sítios no continente africano onde se podem contemplar pinturas e gravuras no mesmo sítio, destacando-se representações animalistas e geométricas perfeitamente combinadas.


A arte rupestre de Tchitundu Hulu demonstra evidências de interacção entre as comunidades de caçadores, recolectores e agricultores, ilustrando as múltiplas fases da pré-história angolana.


A sua importância do ponto de vista da pré-história do país está intimamente associada às certezas de que o Sudoeste angolano constitui o lugar onde as primeiras comunidades de agricultores se fixaram. De igual modo, acredita-se que a região seja o ponto de origem dos grupos Khoikhoi que se moveram mais a Sul da sub-região, há cerca de 2000 anos.


Tchitundulo tem um potencial arqueológico para elucidar sobre as origens e o processo de movimentação destes importantes grupos populacionais em África, possui potencial para ser inscrito na lista do Património Mundial, já que é assente a justificação de que é dos sítios mais esplêndidos de arte rupestre no continente berço, cuja localização, no coração de um meio rural relativamente homogéneo (remoto), perto de um centro de endemismo, lhe confere o potencial para se tornar numa importante fonte para o reforço da identidade dos povos a nível local, nacional e internacional.


Cuito Cuanavale
A importância do Cuito Cuanavale para Angola, África e o Mundo, em geral, deve-se ao facto de ter sido palco de uma das maiores batalhas da história contemporânea, que culminou com o derrube do regime racista na África do Sul e trouxe uma nova geopolítica na perspectiva de uma paz efectiva e a libertação do continente africano.


Cuito Cuanavale tem condições materiais e históricas apropriadas para se transformar em Património da Humanidade, apresentando como justificação o seu carácter histórico e o simbolismo, não só para Angola, mas também para a África Austral e de nível mundial.


A batalha foi o maior confronto militar em África depois da Segunda Guerra Mundial, ocorreu entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988, na localidade com o mesmo nome, na província de Cuando-Cubango, fronteira com a República da Namíbia, onde se confrontaram o exército  regular angolano (com o apoio das forças cubanas) e as forças da UNITA, na altura movimento de guerrilha, apoiada pelo exército do regime racista da África do Sul.


Considerada uma das maiores batalhas ocorridas na África Austral, culminou a 23 de Março de 1988, altura em que as ex-Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), em parceira com os efectivos militares de Cuba, se impuseram ao exército do antigo regime do apartheid sul-africano, que invadiu Angola a partir desta região Sudeste do país.


A derrota das então forças militares sul-africanas obrigou o regime do apartheid a promover conversações quadripartidas, que originaram a assinatura do Acordo de Nova Iorque (EUA) e, consequentemente, a independência da Namíbia e a democratização da África do Sul.


O nome Cuito Cuanavale, um dos municípios da província do Cuando  Cubango, origina dos rios  Cuito e Cuanavale que convergem nesta região. Com uma superfície de 35.610 quilómetros quadrados, o município do Cuito Cuanavale possui 94 mil habitantes.  

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